Francamente: Uma arma perigosa
Janeiro 13, 2012 Nenhum comentário
Um site exibe um homem amarrado, sangrando por pequenos cortes e através de orifícios como nariz e boca. Alguma espécie de anticoagulante vai sendo inserida gota a gota em seu corpo, de modo a evitar que o sangramento estanque. A cena é transmitida ao vivo, com um detalhe perverso: quanto mais gente acessa o site, mais rápido o pobre coitado derrama sangue. E o mostrador do número de pessoas entrando na página não para de crescer. Até que o homem morre.
Essa é uma das cenas do filme “Sem Vestígios”, de 2008, que assisti por acaso, num canal qualquer, uns dias atrás. A vítima em questão foi torturada até a morte por um doido cujo pai se matara saltando de um viaduto. O suicídio foi filmado por um canal de TV, que o exibiu várias vezes na íntegra, satisfeito com os índices de audiência que conquistara. Como vingança, o lunático vai colecionando suas caças, sempre com o mesmo modus operandi: fazer com que os internautas, ao acessar seu site, contribuam para os assassinatos.
Não adiantam os apelos das autoridades para que ninguém entre na página do criminoso. A curiosidade e o sadismo falam mais alto. A questão colocada em discussão, óbvio, é até que ponto temos nosso quinhão de culpa pelas atrocidades que viajam pela internet. Todo mundo que acessa a web já recebeu fotos e vídeos que mostram mortes de várias formas, por choque elétrico, acidentes, ataques de animais, assassinatos etc. e tal.
São cenas dramáticas da vida real que se tornam nada mais que diversão. Quantos de nós nem pensam duas vezes antes de passar essas imagens para nossos contatos? No filme, o assassino diz que o trauma com a morte do pai só aumentou quando a cena do suicídio ganhou a internet e passou a se propagar sem parar. “Em um site, a cena é descrita apenas como ‘uau!’”, ele conta, para exemplificar que a queda fatal do pai virara apenas brincadeira.
Tornou-se um clássico na web a filmagem de um jornalista americano sendo decapitado no Paquistão. Uma pesquisa no Google sobre o assunto retorna inclusive comentários que fizeram acerca dos barulhos ouvidos durante a execução. Fico imaginando o que aconteceria se, a exemplo do filme, os algozes do americano condicionassem sua morte ao número de pessoas que estivessem assistindo. Quanto mais audiência, mais a faca seria apertada contra seu pescoço. Não duvido que o fim do jornalista fosse o mesmo.
A internet nos aproximou como nunca das pessoas de toda a parte do mundo. Isso é bom. Por outro lado, o avanço da tecnologia, infelizmente, não vai parar apenas nas mãos de quem pretende fazer o bem. E a informação pode ser uma arma perigosa.
Numa época em que (quase) todos têm acesso a ela, mais do que nunca devemos saber usá-la.
Por Marcos Paulino
