Corpo Sadio: Corpore sano?
Janeiro 13, 2012 Nenhum comentário
Sábado à noite é um dia que gosto de aproveitar a família e os amigos. Sempre que posso, dou aquela saidinha: barzinho, restaurante, churrasco na casa de alguém da turma ou reunião apenas para bate-papo. Mas, de vez em quando, também é legal ficar em casa, sem hora para dormir nem acordar, e foi isso que aconteceu há algumas semanas.
A programação da TV aos sábados à noite realmente deixa muito a desejar, então, lá pelas tantas, ainda sem sono, resolvi colocar num canal de esportes para assistir a um programa de lutas de vale-tudo, ou, como agora é mais conhecido, o MMA (sigla para artes marciais mistas).
Pra falar a verdade, nunca tinha assistido a uma luta dessas por achar um esporte muito violento, o que nunca foi meu forte. No máximo, assistia a algumas lutas de boxe nos áureos tempos de Mike Tyson, lutas que raramente duravam mais de um minuto. E só.
Porém, após assistir a apenas uma luta, tirei algumas conclusões: isso não pode ser classificado como artes marciais, e vou além, acho que nem pode ser considerado esporte, tamanha a brutalidade. Vamos analisar melhor: vejam os irmãos “Minotauro” e “Minotouro”, as cartilagens de suas orelhas são completamente deformadas pelos sucessivos traumas durante as lutas. Isso pode ser considerado normal? Para mim, tem outro nome: mutilação.
Bem, voltemos ao programa daquele sábado. Assisti à luta do brasileiro Lioto Machida desafiando o campeão mundial, que fiz questão de não guardar o nome. Já no início da luta, o narrador informou que o “Minotauro”, numa luta anterior, havia luxado a clavícula, o que mais tarde se confirmou ser uma fratura do úmero, que é o principal osso do braço. Tá, foi outra luta, vamos assistir a essa. Em alguns minutos, um corte profundo na testa do brasileiro por um golpe recebido, que poderia ter causado um traumatismo crânioencefálico e até uma hemorragia intracraniana, que poderia levar à morte.
E o que é pior: muitas vezes, esse tipo de trauma causa hemorragias em pequenos vasos, que sangram lentamente e só vão dar sintomas muitos dias após o ocorrido. Felizmente, não aconteceu nada disso, e a luta continuou. E veio o final: o brasileiro foi literalmente estrangulado pelo seu oponente, aos olhos passivos do juiz, que só interrompeu a luta após a perda de consciência do lutador. Ora, qualquer um que tem alguma noção na área médica sabe que o estrangulamento causa parada na respiração, com consequente baixo fluxo de oxigênio para todos os órgãos, principalmente o cérebro. E, dependendo do tempo que ficamos sem oxigênio no cérebro, podem haver lesões irreversíveis, que deixarão sequelas, tais como nos AVCs (derrames cerebrais) e, em casos extremos, a morte cerebral. Então pergunto: para que tudo isso? Para que um bando de sanguinários extravase suas frustrações perante o sofrimento alheio?
Os orientais ensinam as artes marciais como defesa pessoal, primando pela disciplina e pelo respeito ao adversário. Então podemos chamar essa “carnificina” de Artes Marciais Mistas? Se esporte é saúde, podemos chamar isso de esporte? Vale a reflexão. Sei que vários leitores discordam dessa minha opinião, talvez alguns nem estendam a leitura até aqui, mas espero sinceramente que alguém com juízo proíba essas lutas, assim como são proibidas as rinhas de briga de galo. No fundo, a única diferença entre as duas é a espécie dos lutadores.
Por Danilo Gullo Ferreira
