Lô Borges lança novo disco e dá entrevista ao PLUG

Dezembro 23, 2011 Nenhum comentário

Num certo dia de 2003, o mineiro Lô Borges, que se lançou em 1972 na história da música brasileira ao gravar, em parceria com Milton Nascimento, o disco “Clube da Esquina”, encasquetou que tinha poucos álbuns de inéditas. Inspirado também pelo nascimento do filho, Luca, colocou-se então a compor. Ou, como ele diz nesta entrevista, apaixonou-se novamente pela composição.

O mais recente fruto desta fase produtiva é “Horizonte Vertical”, recém-lançado. É também seu primeiro disco de inéditas com participações. No caso, uma verdadeira reunião de mineiros: Fernanda Takai, Samuel Rosa e, claro, Milton. Ter tantos conterrâ-neos no seu trabalho, garante Lô, é apenas coincidência. Ele afiança também que, apesar da pouca exposição na grande mídia, tem seu público sempre renovado. Sobre tudo isso, ele falou ao PLUG.

Depois de um tempo sem gravar discos de inéditas, você voltou há ativa há alguns anos. Como foi a concepção deste CD?
Foi muito parecida com a dos três anteriores, que gravei a partir de 2003. A única diferença é que, em vez de usar mais o violão, passei a sentar mais ao piano, que é um instrumento que sempre me deu coisas legais, que foi muito generoso principalmente no começo de minha carreira. Quando comecei a gravar, não tinha na cabeça que este seria um disco de participações. Mas queria incluir duas canções que tinha com o Samuel Rosa e comecei a ouvir uma voz feminina enquanto compunha ao piano. Foi então que convidei a Fernanda Takai pra gravar uma faixa, mas fui mostrando outras e ela acabou participando de quatro.

Foi apenas coincidência você se cercar de mineiros nas participações deste disco?
Foi uma coisa muito espontânea. Além de eu ad-mirá-los, o fato de eles também morarem em Belo Horizonte é muito facilita-dor. Temos muito essa coisa de gostar de nos encontrar pra gravar, pra compor. Foi um curso natural, não tem essa de ter que ser mineiro pra trabalhar comigo. Tanto que já fiz música com Tom Zé, Arnaldo Antunes, Nando Reis.

Você teve o patrocínio da Natura pra gravar este disco. Hoje mesmo artistas consagrados precisam desse tipo de apoio pra fazer CDs?
Sempre gravei meus discos com multinacionais, mas fui um filho bastardo delas. Nunca usei a estrutura delas, nunca me puseram na grande mídia, em programas dominicais de grande repercussão. Na verdade, minha carreira sempre correu de uma maneira independente. Desde 2003, tenho bancado os discos com meus recursos, e meu empresário paralelamente entra na Lei de Incentivo (à Cultura de Minas Gerais). Se der certo, beleza; se não, lanço o disco da mesma forma. Tenho que agradecer à Natura por ter topado patrocinar o projeto, mas ele já existia independentemente disso. O grande investidor da minha carreira sou eu mesmo.

Muitos artistas que não aparecem na grande mídia tiram o seu sustento principalmente de shows. É também o seu caso?
Meu e de quase todos os artistas. Ouvi o Lenine dizendo que antes o disco era o principal e o show, um acessório. Hoje o disco virou um acessório. O show é onde o artista tem a sua sobrevivência e de onde tira recursos pra produzir mais discos. Minha intenção é continuar fazendo discos de inéditas, em fevereiro já quero começar a compor pro próximo. Gosto do show, do público, de trabalhar em estúdio, mas o que me motiva a ser artista é a composição. Não tem a menor graça ficar cantando canções do século 20, viver do Clube da Esquina. Tenho o maior orgulho daquele disco, mas o meu temperamento é de sempre buscar coisas novas na minha música.

Mesmo sem visibilidade na tal grande mídia é possível ter um público fiel?
Exatamente. Nunca tive essa visibilidade, no entanto tenho um grande público e faço shows o ano inteiro. Faço menos shows do que sou requisitado pra fazê-los, porque meu produtor entende que minha prioridade, neste momento da minha vida, é a composição. Fiquei muito entusiasmado quando meu filho nasceu, em 2000, e me apaixonei pela composição novamente. Quero que ele veja que o pai dele foi importante nos anos 70, mas que nos anos 2000 estava a mil, fazendo um disco atrás do outro. Mas o que me motiva mesmo é a composição por si só.

Falando no seu filho, como é seu relacionamento com o público jovem? Há renovação dos seus fãs?
O tempo todo, caso contrário eu estaria tocando pros caras de 60 anos. Os pais passam as informações pros filhos, que repassam pros amigos. Nos meus shows, as faixas etárias são supermisturadas. Jovens de 20, 30 anos são muito interessados na minha música e comparecem aos shows. O cara de 60 não quer mais sair de casa pra ver show (risos).

Por Marcos Paulino

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