Francamente: Tic,tac,tic,tac,tic,tac,tic,tac
Dezembro 30, 2011 Nenhum comentário
A história se consome diante de nossos olhos. Escorre por entre os dedos, maleável, ininterruptamente. Nada a detém. Os ponteiros do relógio a empurram num movimento cada vez mais acelerado. Sempre, sempre. Tic,tac,tic,tac,tic,tac. Assim vai ela, a história, seguindo seu rumo sem fim. O ponto de parada é o infinito. De onde ela veio, não se sabe ao certo. Mas para onde vai, tem-se a certeza: para frente.
De roldão, vai levando tudo e todos. Sugando o que se coloca à sua frente num redemoinho do qual ninguém escapa. Impiedosa. Ruidosa. Constante. É um trem de alta velocidade. Cada vez mais alta. Segue, segue, segue. Incansável. Um dragão soltando fogo pelas ventas, incinerando seus obstásculos.
É uma usina. Sua matéria-prima é o futuro. Que transforma em presente. E, já em seguida, em passado. O passado é a fumaça que gera enquanto tritura dias, horas, minutos, segundos, centésimos, milésimos. O que vem depois, mesmo? Não importa. Qualquer fração de tempo lhe serve de energia. Mastiga tempo. E cospe passado.
Isso, é assim que funciona. Tic,tac,tic,tac,tic,tac. Enfim, o que é o tempo, senão uma invenção para tentar medir o quão rápido passam as vidas? Uma constatação de que somos produtos perecíveis. Perecemos, é certo. Uns mais, outros menos. Mas perecemos todos até o ponto onde nem perecer mais é possível. Onde a história, ah, essa história, engole-nos sem maiores avisos. Sem alertas. Sem placas de advertência.
Viramos, nesse momento, nós também parte da história. Rezemos então para que tenhamos, pelo menos a maior parte do tempo, feito o suficiente para que nosso capítulo seja contado sem receio. Vimos, agora mesmo, homens impassíveis, intocáveis, intransponíveis serem absorvidos pela história como a água é pela esponja. Assim como aumentam seu volume, por ela escorrem. Alguns deixam nela o rastro da sujeira que acumularam enquanto viviam em seus castelos. Deixam-na marcada pelo sangue que arrancaram de tantos outros, que, esses sim, passarão por ela gotejando apenas o perfume de quem, de tanto sofrer, transformou-se em anjo. Num belo anjo.
Cidades submergem. Cidades secam. Cidades racham ao meio. Implodem. Explodem. É a história, de novo ela, rastejando por entre suas ruas. Passando sob, e sobre, seus prédios. Serpenteando lasciva, escorregadia. Ganhando embalo. Iniciando guerras. Acabando com guerras. Provocando risos e choros, suspiros e gritos. Pintando o belo. Desenhando o feio. Apagando tudo, o belo e o feio.
Quem somos nós para lhe dizer quando parar? Quem pode marcar para 2012, ou para qualquer outro ano, seu fim? Não, ela mesma decidirá. E não parece nada disposta a isso. Resta-nos observá-la, indefesos. Resignados. Assim será. Tic,tac,tic,tac,tic,tac.
Por Marcos Paulino
