Francamente: Punição Civilizada
Dezembro 2, 2011 Nenhum comentário
Dois terços dos Estados americanos utilizam a pena de morte. Não sei dizer exatamente em quais situações, mas familiares de vítimas dos condenados à pena capital são autorizados a acompanhar a execução. É uma cena que já foi retratada em vários filmes e sempre me provoca reflexões. Afinal, o que sente a pessoa que pode presenciar o fim de alguém que lhe causou extrema dor, tirando a vida de um parente que ela amava? Vingança, paz, o consolo de que a justiça foi feita?
Certamente, isso está aquém da nossa capacidade de imaginação. Só sentindo na pele mesmo, e quem há de desejá-lo? Eu, de minha parte, sofro um estranho desconforto quando vejo no noticiário que algum condenado terá executada sua sentença de morte. Por mais que não haja dúvidas de sua culpa. Difícil explicar o porquê, mas fico sempre com uma sensação ruim, não consigo assimilar essa coisa de olho por olho, dente por dente.
Assim, foi com algum asco que acompanhei as cenas da captura de Muamar Kadafi, que pouco depois seria executado por seus perseguidores. O mal que esse homem causou ao seu país e a seus conterrâneos por certo o condena a uma eternidade no inferno. Foram milhares de inocentes mortos para que sua ditadura se perpetuasse. E incontáveis pessoas que pagaram com sua vida, sua honra, sua dignidade apenas para que ele se divertisse.
Um monstro, sem dúvida. Mas quando se vê alguém assim ferido, maltrapilho, olhos esbugalhados à espera do pior, percebe-se que, debaixo de toda aquela soberba e crueldade, há um ser humano. Da pior espécie, mas um ser humano. Por mais que, racionalmente, eu quisesse dizer “Bem-feito, teve o que mereceu”, emocionalmente ficaria mais em paz se ele tivesse um julgamento justo. Justiça que, frise-se, ele nunca ofereceu a quem atravessou o seu caminho. Mas por que ser igual a ele?
Desce um pano rápido nestas reflexões e, salientando que, por óbvio, não cabe nenhuma comparação com o ditador líbio, vejo as cenas da família do prefeito de Limeira saindo da cadeia. À espera de sua mulher e filhos, nenhum dos tantos assessores que lhes cobriram de paparicos nos últimos anos. Quem lá estava era uma multidão raivosa, querendo fazer justiça com as próprias mãos. É em momentos como esses que o povo, farto de tanto ser enganado, troca razão pela emoção. E quer resolver tudo ali, na hora.
Fiquei incomodado com populares tentando agredir os filhos do prefeito. Não gosto de violência, não acho que é assim que as coisas devem ser resolvidas. Quero acreditar que, se crimes realmente foram cometidos, como as evidências sugerem que foram, que sejam apurados e comprovados. E que os criminosos, se houver, sejam exemplarmente punidos. Mas temos que dar esse exemplo de forma civilizada.
