Mente Sadia: Mães culpadas
Novembro 4, 2011 Nenhum comentário
Uma leitora pergunta: por que as mães são sempre culpadas?
Pois bem! Esta questão surge a partir do momento em que se tem o entendimento de que a chegada de um novo ser no mundo é precedida de uma história, de uma família, de pais. De pais que o nutrirão fisicamente e psiquicamente. Também serão os pais os modelos de conduta, caráter, de inserção do indivíduo na sociedade. Portanto, são eles importantíssimos na formação de um novo ser.
Você, neste momento, pode estar perguntando: mas a questão levantada foi sobre a culpa das mães e você esta falando em pais.
Explico: no passado, não se tinha o conhecimento e a consciência do papel dos pais na formação da personalidade dos filhos. Com o advento da Psicanálise e outras teorias sobre saúde e os transtornos mentais, chega-se à conclusão de que a inter-relação que um bebê trava com os cuidadores vai “moldando” seu jeito de ser. E, dentro do modelo tradicional de família, a primeira pessoa na vida de um recém-nascido era a mãe.
Mas, afinal, as mães têm ou não têm culpa nos problemas dos filhos? Sim e não! Depende do caso e do problema. Se você pensar que a escolha do pai em termos genéticos, de personalidade, de adequação é escolha da mãe? Ela tem culpa? E se refizer o caminho de volta, se lembrando da infância, do quanto a mãe gratificou, frustrou, educou, não terá nenhuma crítica?
A mãe é, ou a pessoa que a substitui, a primeira fonte de vida de um bebê, que só crescerá se esta fonte for suficientemente boa para seu desenvolvimento. Ao contrário, sucumbirá, pois não tem recursos próprios para sobreviver. É nesta “trama” que desenvolve o físico, o psíquico e o emocional, calcados nas heranças genéticas, herdadas diretamente dos pais biológicos, que são os transmissores de toda uma geração.
O novo ser carrega um pouco de muitos (tios, avós, tataravós etc.) por parte da mãe e do pai. Na análise de pacientes, vêm à tona sim, para reconstrução dos vínculos familiares, emoções e lembranças que remetem à culpa. Porém, com o crescimento do indivíduo, vai se costurando o conceito de responsabilidade.
Em alguns aspectos, a mãe foi sim culpada, noutros responsável, mas, sobretudo, ela foi necessária para a vinda ao mundo da pessoa em questão, que pode ao longo da vida ressignificar sua história, compreender, perdoar, relevar e se individualizar, se tornando um ser mais leve da sua bagagem. O problema da culpa pode ter desdobramentos nefastos àqueles que a ele se apegam (filhos e mães).
A mãe que se sente culpada em relação aos filhos ora poderá mimá-los demais, ora poderá ser perversa por conta da culpa que carrega. Em ambas as situações, prejudicando o desenvolvimento dos filhos. Os filhos que culpam as mães, ou os pais, por mais que tenham razões, em algum momento terão que dissolver esses nós emocionais que os prendem ao passado e a uma emoção paralisadora do desenvolvimento, para que possam ir adiante na vida.
O problema é ainda maior quando pais (mãe e/ou pai) e filhos (filha ou filho) alimentam este embrólio de culpados e vítimas, alternando-se nas posições. Isto ocorre por carências, medos, apegos, criando um círculo vicioso em que rodopiam no problema e deixam de aproveitar as chances que a vida lhes oferece para crescer pessoal, profissional, emocionalmente.
Se há culpas, não é saudável que elas se perpetuem; se há vítimas, igualmente não é saudável que elas não saiam deste papel.
