Francamente: Vão para o inferno
Setembro 9, 2011 Nenhum comentário
Leiliane Rebouças saiu de sua casa decidida a deixar clara sua opinião. Enfiou na cabeça uma tiara com dois chifres vermelhos espetados, entrou numa chamativa roupa escarlate e se armou com um tridente. De plástico. Enfim, fantasiou-se de diabo, ou melhor, diaba. Sua outra arma, bem mais contundente, era um cartaz, de fundo branco, onde escreveu, em letras vermelhas: “Srs (as) Deputados (as) que salvaram a Jaqueline Roriz: Vão para o inferno. E que o diabo os carregue”.
Assim vestida e municiada, dirigiu-se à Câmara dos Deputados para protestar contra a absolvição da deputada Jaqueline Roriz (PMN-RN), aquela que foi flagrada em vídeo recebendo pacotes de dinheiro e que, por isso, sofreu um processo que pedia a cassação de seu mandato.
Depois que as imagens, gravadas em 2006, mas divulgadas no início deste ano, tornaram públicas as cenas em que o delator do mensalão, Durval Barbosa, entregava a grana a Jaqueline, parecia favas contadas que ela acabasse punida.
Parecia. Protegida pelo voto secreto, a maioria dos dos deputados optou pela absolvição da nobre colega. Foi um claro recado: “Eu posso ser você amanhã. Me inclua fora dessa”. Essa foi a prática. Na teoria, os parlamentares acataram o argumento da defesa de Jaqueline, de que, em 2006, ela não cumpria nenhum mandato, portanto não poderia ser acusada de falta de decoro. E a grande maioria de nós resmungou, praguejou, disse em frente à TV que era uma vergonha.
Mas ficamos nisso. E continuamos tocando nossas vidas. Mas Leiliane Re-bouças, não. Ela se vestiu de capeta, escreveu um cartaz mandando todos aqueles deputados para o inferno e foi exibi-lo na Câmara.
Sua foto foi estampada em jornais e sites de todo o país e, assim, sua mensagem ganhou o mundo. Ela falou o que todos gostaríamos de ter dito àqueles deputados que absolveram Jaqueline: “Vão para o inferno!”. Na esperança, quase certeza, de que esse desejo vai se realizar, se não nessa vida, na próxima.
Admiro gente como Leiliane. Tivéssemos todos nós, brasileiros, um pouco desse ímpeto, e a bandalheira generalizada não teria chegado aos níveis atuais. Vídeos mostram políticos e seus asseclas enfiando dinheiro de propina em tudo o que é lugar. Somos afrontados com a roubalheira em todos os níveis.
Caçoam de nós, confiantes na vigente impunidade. Fazem gato e sapato dos cofres públicos, que enchemos com nosso dinheirinho suado da lida diária.
E nós concordamos com o Boris Casoy: “É uma vergonha!”. Mas o que fazemos, na prática, para mudar isso? Nada, absolutamente nada, como pode comprovar o resultado que emana das urnas a cada eleição.
