Francamente: Certo gostinho de ontem

Setembro 30, 2011 Nenhum comentário

Quando vejo imagens antigas de jogos de futebol, gosto dos trechos em que a câmera focaliza mais de perto algumas pessoas na arquibancada. Nas cenas em preto e branco, das décadas de 1950 ou 60, aparecem senhores de ternos e chapéus ou mulheres com adornos na cabeça, trazendo no rosto feições sinceras de alegria ou preocupação. Invariavelmente, denotam alguma ingenuidade.

Pelas expressões do público, conclui-se que uma partida de futebol antigamente era tão somente uma diversão. Famílias se arrumavam para ir ao estádio e dividiam os espaços com torcedores de outros times. Lá estavam homens e mulheres de todas as idades. Aplaudiam, gritavam, reclamavam, mas, antes de tudo, respeitavam.

Como não tinha nascido naquela época, apenas posso deduzir, por meio dessas imagens, que era assim que tudo acontecia. E que, ao final do jogo, alguns alegres, outros tristes, iam em paz para casa, para a missa ou talvez a uma sorveteria. Quem me lê e viveu esses tempos é que poderá dizer se realmente era assim que as coisas funcionavam num estádio.

Mas, seja como for, me lembrei dessas cenas descoloridas quando assisti, na semana passada, a uma reportagem sobre um jogo do campeonato turco. O mandante, Fenerbahce, havia sido punido por mau comportamento de seus torcedores. Como pena, deveria realizar uma série de jogos sem público

Porém, a federação turca teve a excelente ideia de, em vez disso, permitir que somente mulheres e crianças assistissem ao confronto com o Manisapor. Melhor: com entrada gratuita. Foi um barato ver aquela mulherada e a criançada, 41 mil pessoas no total, curtirem o jogo. Os gritos espontâneos a cada ataque de um lado e de outro foram o retrato da pura emoção causada pelo esporte.

Nada de frases de torcidas organizadas ofendendo os adversários. Nenhum clima de guerra. A diversão pela diversão. Como me parece que acontecia algumas décadas atrás. Em contrapartida, São Paulo e Corinthians se enfrentaram na quarta-feira da última semana com um público bem aquém do que mereceria um clássico dessa grandeza.

E só cerca de 3 mil corintianos puderam comparecer ao Morumbi, marcado por vários espaços vazios. Afinal, colocar as duas torcidas em condições de igualdade numérica hoje em dia é sempre uma temeridade. Não é, claro, um “privilégio” brasileiro. Vários países, como a Argentina, adotam torcida única em jogos de grande rivalidade.

Uma pena, sem dúvida. Mas dividir as arquibancadas entre torcidas rivais e garantir a segurança do público é coisa do tempo em que a Seleção Brasileira não figurava apenas na sétima posição do ranking elaborado pela Fifa.

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