Francamente: Divagar devagar

Agosto 26, 2011 Nenhum comentário

Ainda não assisti ao filme “A Árvore da Vida”, sobre o qual li boas críticas. Mas não é a sinopse dessa obra de Terrence Malick que me despertou reflexões, e sim uma entrevista que vi com Jessica Chastain, que interpreta a mulher do personagem vivido por Brad Pitt. Porém, faz-se necessário situar o leitor.

Premiado com a Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes deste ano, “A Árvore da Vida” retrata o cotidiano de uma família texana na década de 1950. Vem daí, dessa época em que se passa parte da trama, o comentário feito pela atriz que chamou a minha atenção.
Jessica Chastain contou que, por sugestão de Malick, assistiu a vários filmes das décadas de 1930 e 1940. Em especial, aqueles estrelados por Lauren Bacall.

O que o diretor queria que a atriz percebesse era a diferença de ritmo dos diálogos de antigamente em contraponto com os de hoje. A conclusão a que ela chegou é de que os personagens das produções de então falavam “de forma lenta, com franqueza”.

Entender esse descompasso de ritmo entre as conversas de décadas atrás e as de hoje, no olhar de Malick, era fundamental para que Jessica pudesse construir seu personagem, que, se em 50 era mãe, teria sido criada em 30 e 40.
Desculpe-me o leitor se divago tentando adivinhar o que se passou na cabeça do diretor. Mas é isso, divagar, e também devagar, talvez divagar devagar, que nos faça um tanto de falta atualmente. A observação de Jessica na tal entrevista foi a seguinte: “Hoje todos falamos rápido, com medo que nos cortem”.

Verdade! As pessoas agora não têm muita paciência para escutar, ler, ruminar as palavras. Cada um quer colocar seu ponto de vista, responder, mostrar que sabe. Não há mais tempo para um diálogo em que você fala tranquilamente, eu o escuto pacientemente, para só depois invertermos os papéis. Falamos todos ao mesmo tempo em nossos celulares, e-mails, facebooks, twitters.

Nem bem recebemos a informação, já temos nossa posição formada, bandeira hasteada para marcar nosso território. Falamos muito e não falamos nada. Paradoxo: enquanto escrevia estas mal traçadas, tive que desviar minha atenção mais de uma vez para tratar de assuntos que nada tinham a ver com este divagar.

Isso mostra que não basta ter consciência de que hoje é tudo ao mesmo tempo agora. Somos levados de roldão pela turba que nos cerca com seus nextéis em punho. Falando, falando, falando sem parar. Rápido. Muito. Chamam-me no telefone. Cutucam-me no Facebook. Seguem-me no Twitter. Mandam-me e-mails. E eu, “mea maxima culpa”, enfiado até o pescoço em tudo isso. Acho que preciso bater um papo com a Lauren Bacall.

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