Francamente: Lennon quase me fez chorar
Julho 15, 2011 Nenhum comentário
Nunca imaginei que isso fosse possível, mas um número de dança me deixou com os olhos mareados. Sim, eu mesmo, este bronco de ouvidos rudes e calejados por décadas de rock’ n’roll em volumes nada recomendáveis. Não digo que chorei, para que o leitor não duvide da minha masculinidade. Tive vontade, admito, mas tem aquela história de que homem não chora…
Deixa pra lá e vamos ao que interessa. O autor da façanha foi um jovem de apenas 20 anos, um tal de John Lennon da Silva. Sim, você já ouviu esse nome em algum lugar, mas nada tem a ver com o marido da Yoko. Trata-se de um praticante de street dance, aquele tipo de dança de rua (como o nome, óbvio, já explica) que exige grande coordenação motora.
Braços e pernas se movem como se sem ossos estivessem, e antecedem ou sucedem mergulhos rumo ao chão ou rodopios em que as costas servem de eixo. John Lennon, o brasileiro, foi representar esse estilo no programa “Se Ela Dança Eu Danço”, do SBT, muito prazer, acabei de conhecê-lo. Verdade. Nunca assisti, nem me interessei. Só vi o número do John pela internet.
Para perplexidade dos jurados, ele anunciou que dançaria “A Morte do Cisne”. Como assim? Teve que enfrentar uma sabatina. Um dos especialistas do júri o questionou se ele sabia que se tratava de uma coreografia que interpretava os últimos instantes de um cisne ferido. Outra fez objeções ao seu “figurino”: calça larga, tênis e camiseta.
Mas, sem perder a calma, John explicou que faria uma releitura da peça. Finalmente autorizado a dançar, apresentou uma versão street dance desse clássico do balé que, para resumir, deixou os jurados de queixo caído. Um deles, lágrimas escorrendo pelas bochechas, nem de falar foi capaz. Outro aplaudiu em pé. Todos tiveram que reverenciá-lo, colocando no saco a empáfia com que o receberam.
Não os critico. Quem de nós não prejulga os outros? Seja pela aparência, pelo sotaque, pelas roupas, pelo corte de cabelo, pelos óculos ou qualquer outra coisa que, de forma alguma, mostra a alma que está contida naquele corpo. Quantas vezes não admitimos que, ao conhecer melhor a pessoa, estávamos errados em nossos (pré) conceitos?
Anna Pavlova, bailarina russa que tinha “A Morte do Cisne” como sua marca registrada, foi ela própria vítima de opiniões precipitadas. Diziam, naquele final de século 19, início do 20, que seu corpo mirrado não seria capaz de reproduzir as posições essenciais para uma bailarina de primeiro time.
Pois ela, feminina até os ossos, reinventou o balé clássico. Em seus últimos momentos, no auge da fama, vítima de uma pneumonia, pediu a quem interpretasse “A Morte do Cisne” que fizesse o último compasso “bem suave”. Ela teria adorado a versão de John.
