Francamente: Fui modelo por alguns minutos
Julho 8, 2011 Nenhum comentário
As duas moças me pararam na rua, ou melhor, na calçada. Eu caminhava pelo Centro da cidade, tendo co-mo destino uma loja onde iria encontrar minha mulher. “Posso falar com você um minutinho?”, me perguntou uma delas. E já emendou, antes mesmo da minha resposta: “Você conhece a agência tal?”.
Nesse momento, eu já imaginava como diria a ela que não queria comprar nada. Mas aí a jovem me explicou que trabalhava para uma agência de modelos que estava se instalando na cidade e que procuravam interessados em compor seu “casting”, uma das muitas palavras em inglês utilizadas nesse meio.
Casting nada mais é do que o “elenco” de modelos de determinada agência, se é que entendi bem. Sabe-se lá por quê, a moça achou que eu teria alguma serventia para os seus patrões. Disse-lhe que eu já estava velho demais para isso, e me segurei para perguntar a ela se há muito que não visitava um oftalmologista.
Muito educada, ela me explicou que estavam selecionando modelos das mais variadas idades. “Se formos fazer um comercial de banco, por exemplo, vamos precisar de gente mais velha”, ensinou-me, enquanto me entregava o cartão da agência, pedindo que fizesse contato caso houvesse interesse. Depois de mais de quatro décadas de vida, e ciente de meus escassos atributos físicos, eu é que não iria pagar o mico de me meter numa dessas. Foi a decisão certa, como minha filha me fez ver quando contei a ela. Delicadamente, ela me disse que qualquer um que mantenha a arcada dentária completa e uma barriga menor que dois barris de chope juntos pode ser convidado para um casting.
De qualquer modo, eu tinha guardado o cartão da agência no bolso, disposto a impressionar a patroa. O maridão, afinal, ainda dava um caldo. Desses ralinhos, de canja de hospital, mas dava. Também não posso negar que os quarteirões seguintes ao encontro com a moça da agência foram divertidos. Fiquei me imaginando na passarela da São Paulo Fashion Week ou no comercial de TV de um grande banco, interpretando um cliente que (só no faz-de-conta mesmo) tem motivos para sorrir na frente do gerente de sua conta. Quem sabe, com sorte, até uma pontinha num filme de segunda linha de Hollywood não sobraria para mim?
“Everytime I close my eyes, I see my name in shining lights”, fui cantando pelo caminho. Até que o choque de realidade que minha querida filha me impôs me fez cair das nuvens. “Nada de holofotes, pai, seu negócio é mesmo batucar eternamente as teclas de seu obsoleto computador”, ela deve ter pensado e, caridosa, não ter dito. Mas, peraí?
E o gordinho feioso que contracena com a Gisele no comercial da Sky? Onde mesmo guardei o cartão da moça da agência?
