Mente Sadia: Crescer
Junho 10, 2011 Nenhum comentário
Na semana passada, participei de um simpósio cujo tema central foi o “sofrimento psíquico na Pós-modernidade”. Dele extraí reflexões que venho aqui compartilhar com você.
Em primeiro lugar, o tema nos remete a nos situar no tempo, no momento histórico em que estamos vivendo. Seria mesmo Pós-moderno? Pois nem estamos dando conta de tanta modernidade e já tem gente falando em Pós-moderno?
Esta delimitação do tempo vem a calhar quando vivemos num período em que parece haver falta de tempo. Não temos tido tempo para digerir o excesso de informações; para ler tudo que gostaríamos de ler; para aprofundarmos a amizade com quem temos afinidades; para compreender os acontecimentos; para termos preguiça e não termos culpa em tê-la etc.
Vivemos em um mundo ágil, nos dando a sensação de que estamos sempre atrasados, desatualizados, desinformados, angustiados.
Cresce por um lado o sentimento de onipotência, próprio dos primeiros estágios da vida. A macarronada pode ser a qualquer dia, o refrigerante a qualquer hora, o acesso às informações via internet é imediato, mas se dura uns segundos a resposta já é o bastante para pensarmos em um novo provedor, mais rápido, como se estivéssemos perdendo o trem. Talvez estejamos. Talvez estejamos perdendo o trem da paciência, da tolerância, da boa fé, da bondade, da alegria de viver, em função do desenvolvimento de um falso-self, de um falso si mesmo, onde a aparência toma o lugar da essência.
Ao mesmo tempo em que cresce a onipotência, o sentimento de “posso tudo”, escancarado por políticos, mas disseminado na população, o que assistimos é uma baixa tolerância à frustração. Tudo tem que ser para ontem.
Aguardar, esperar, ter paciência, relevar são atitudes cada vez mais em desuso, dando lugar a irritabilidade, impaciência, intolerância e aspereza. Neste mundo imediático, há uma fragmentação das relações, distanciando pais e filhos, que embora co-habitem o mesmo teto, não convivem, são capazes de se comunicar via computador morando na mesma casa.
Desta forma, as pessoas estão se distanciando umas das outras, desvincu-lando inclusive a sexualidade da função reprodutiva e afetiva, levando a uma espécie de narcisis-mo, onde o sujeito só olha para si e para as suas necessidades, evitando a qualquer custo lidar com a dor da convivência. Pois conviver é trabalhoso, exige abilidades cada vez mais escassas.
Resultado: isolamento, individualismo exacerbado, competição excessiva, sentimento de vazio, irrealidade e insatisfação, mesmo quando há sucesso.
Crescer é também aprender a lidar com frustrações, ser capaz e suportar a dor do narcisismo ferido, desvincular-se dos aspectos primitivos da personalidade, que necessitava da sensação de único, de príncipe ou princesa.
Crescer é se dar conta de que é possível se desenvolver sem apegos infantis, de sobreviver se existir uma relação de dois e você não está no meio.
