Gaúchos do Apanhador Só inovam ao lançar trabalho em formato de fita cassete
Junho 3, 2011 Nenhum comentário
Responsáveis por um dos grandes discos nacionais de 2010 (segundo melhor álbum do ano na votação do Scream & Yell), o Apanhador Só decidiu rearranjar algumas músicas de seu álbum de estreia, adaptando-as para os locais em que a banda é “forçada” a se apresentar de forma acústica. O resultado dessa necessidade é “Acústico-Sucateiro”, que os gaúchos estão disponibilizando para download e vendendo/trocando em fita cassete.
“Fita cassete?”, pergunta o leitor. Isso mesmo. Segundo a Wikipédia, o cassete é um tipo de gravação de áudio lançado oficialmente em 1963, que era basicamente o mesmo que a gravação em bobinas, só que os carretos e todo o mecanismo de movimento da fita se encontravam dentro de uma pequena caixa plástica, facilitando o manuseio e a utilização. E isso gravava e tocava música.
Inspirados nos objetos que a percussionista Carina Levitan usava no começo do Apanhador Só, o quarteto decidiu rearranjar músicas como “Nescafé”, “Maria Augusta”, “Prédio” e “Um Rei e Um Zé”, utilizando sons de conduíte, cantil (de escoteiro), panela, walkie talkie, sineta de recepção e outros objetos (o encarte lista todos) gravados na sala do vocalista e guitarrista Alexandre Kumpinski.
O Scream & Yell, parceiro do PLUG, cedeu um lote de fitas para o projeto e conversou com o guitarrista Felipe Zancanaro um dia antes da banda se aventurar em apresentações acústico-sucateiras em locais inusitados de São Paulo (no Viaduto do Chá, na avenida Paulista, na frente da Galeria do Rock, na frente do Parque Trianon): “A gente chega e toca. Leva fitas, CDs, camisetas e sai antes da polícia nos pegar (risos). Pode acontecer”, diz Felipe.
Você pode baixar “Acústico-Sucateiro” no www.apanhadorso.com (o arquivo traz a arte completa do cassete, permitindo que você faça uma fita “quase” igual em casa – a versão oficial traz extras) e conferir na agenda da banda quando será a próxima “intervenção” do Apanhador Só. “A gente chama de intervenção para as pessoas entenderem que a gente pode ser chutado dali”, brinca o guitarrista. Abaixo, o bate papo.
Como surgiu a ideia deste projeto?
Em um bate papo com a Juli Baldi, radialista da Oi FM de Porto Alegre. Nós estávamos na rádio falando dos nossos próximos lançamentos, e no final estávamos conversando, e ela sugeriu: “Vocês poderiam lançar isso em fita cassete”. Isso casava com algo que já vínhamos com vontade de fazer e caía muito bem com a ideia do disco, de ser sucateiro, de mexer com sucata e de alguma forma reciclar coisas e transformá-las em instrumentos. Tem tudo a ver com a estética. A ideia deste “Acústico-Sucateiro” não é a de ser nosso segundo disco, até porque são basicamente regravações em arranjos diferentes. Mas era algo que a gente tinha e precisava registrar.
A fita cassete fez parte do cotidiano de vocês?
Muito. Estava olhando as suas fitas e uma das coisas que eu fazia muito quando era guri, e não tinha grana pa-ra comprar disco, era comprar fitas virgens, pegar os discos dos amigos e passar para elas. Xerocava as capas e remontava artisticamente para caber na fita. Recriava a capa do disco para o cassete, onde o espaço é mais limitado.
E rolavam as fitinhas temáticas para alguma possível paquera…
Sim, igual os caras fazem hoje em CD. Sei que o Alexandre (Kumpinski, vocalista e guitarrista) também tem um monte de fitas cassete em casa. Todos tinham, e a ideia inicial era a gente juntar todas as fitas que tínhamos em casa e gravar em cima. Algo bem reciclável. Depois vimos que havia várias que já estavam deterioradas e algumas que tínhamos dó (de gravar em cima). Aprendi a escutar Radiohead em fita cassete. O meu carro tinha toca-fitas. Era do tempo que não se roubava toca-fitas (risos). E eu gravava Radiohead nas fitinhas, reproduzia os encartes, que são fantásticos, e levava no carro. Era onde eu mais escutava.
Como as pessoas estão reagindo?
Muito bem. Melhor do que eu pensava. Primeiro porque o disco ficou muito melhor do que a gente esperava. Achávamos que iria ser um registro caseiro das ideias que a gente tinha porque estávamos fazendo muito pocket show. A Carina Levitan já usava percussão com o Apanhador Só antes de ir para Londres, mas ficamos desfalcados um tempo. Só que a necessidade dos pocket shows (em livrarias) fez com que a gente ressuscitasse essas ideias. Começamos a fazer arranjos e começou a ficar bacana. No inicio era tudo muito aleatório. A gente tocava qualquer coisa (carrinho de fricção, gaiola) e até hoje estamos experimentando…
O que tem de instrumento neste disco? Você estava falando de gaiola…
Gaiola a gente usou para gravar uma versão de “Ramão”, do Paul McCartney, para uma coletânea organizada pelo site Rock’ n’Beats, mas tem conduíte, cantil (de escoteiro), panela, walkie talkie, que é muito doido. Ele era do meu pai, quando ele tinha a minha idade, e eu brinquei muito quando era criança. Eu abri o walkie talkie e coloquei um monte de potenciômetro, e estamos usando ele para fazer uns solos ou código Morse (como em “Maria Augusta”), uma coisa meio funk carioca. Tem ralador de queijo, que parece reco-reco, uns tecladinhos de R$ 1,99, grelha, que já é mais antigo, algo que a Carina trouxe. Ela fez ainda uma coisa muito bacana que chamamos de móbile de chaves: é um escorredor de batata fritas com chaves amarradas na parte debaixo. Colocamos uns violõezi-nhos de brinquedo em “Na Ponta dos Pés”, a única música inédita do disco.
O que funciona no ensaio, funciona nos shows?
Nem sempre. No ensaio, tem coisas que a gente entra numa doidera e fica do caramba. Chega ao palco e a gente percebe que o clima não é aquele. Não sei. De repente são músicas que só vão funcionar no disco, ou a partir dele, como foi com “Um Rei e o Zé”, que até gravarmos não era uma música forte. E na gravação, o (Marcelo) Fruet foi mexendo em algumas coisas, nós também, a música foi virando um Frankens-tein, até que chegamos ao conceito que ela virou. E hoje ela é uma das mais fortes do show.
E está rolando esse escambo das pessoas trocarem cassetes com a banda?
Sim! A pessoa leva cinco cassetes em bom estado e ela leva a nossa. As que estamos distribuindo ainda são as fitas novas que conseguimos comprar, mas já estamos recebendo várias de trocas. Muita gente levou no primeiro show em Porto Alegre. É bacana. Daqui a pouco a pessoa pega uma dessas suas fitas, e algumas delas você contou que são demos de bandas, e essa pessoa vai ouvir algo que ela necessariamente não comprou, e pode gostar ou não, mas está ali. É um dos meus sonhos realizados: lançar uma fita cassete. O próximo (sonho) é lançar um vinil.
Marcelo Costa – Scream & Yell
