Francamente: Paradoxo da democracia

Junho 3, 2011 Nenhum comentário

Dias atrás, a modelo brasileira Lea T. chamou atenção ao posar para fotos numa praia carioca. Seus retratos em trajes de banho vão ilustrar a campanha publicitária de uma marca famosa de moda para o verão. No Rio de Janeiro, onde celebridade é figurinha fácil, nada mais normal que uma delas ser alvo de fotógrafos à beira-mar.

No caso de Lea T., a diferença é que, no momento de ser identificada pela imprensa, logo depois de sua profissão, aparece a palavra “transexual”. Fica sempre assim: “A modelo transexual Lea T…”. Ah, ela também tem outro diferencial: é filha de pai famoso, a saber, se é que alguém ainda não sabe, o ex-jogador e técnico de futebol Toninho Cerezo.

Talvez por ter tantas vezes martelada na imprensa sua condição de transexual, Lea T. acabe chamando mais atenção que outras modelos. De repente, vai ver que essa exposição extra até acabe por lhe abrir algumas portas. Mas, para mim, ela é modelo e ponto final. O próprio Toninho Cerezo deu uma lição de amor ao declarar que acolheria a filha, que nasceu filho, porque o que importava de verdade é que ela, ou ele, seja feliz.

E se, para uma pessoa tão próxima à Lea T., não faz diferença se ela nasceu mulher ou só se tornou uma, de fato e de direito, mais tarde, por que para mim faria? Por que será que algumas pessoas se preocupam tanto com a vida alheia?
É nisso que tenho pensado durante essa polêmica que o Brasil vem assistindo sobre a sexualidade de seu povo, desde que foi reconhecida a união entre pessoas do mesmo sexo. O que passa na cabeça de um tipo como o deputado Jair Bolsonaro, que tem chamado para si o papel de bastião da moral e dos bons costumes? De que ele tem tanto medo, para se entrincheirar em luta tão ferrenha contra os homossexuais?

Sinceramente, não consigo ver problema em duas pessoas que se amam viverem juntas. E quererem tornar essa união oficial, perante a lei. Se se trata de duas pessoas adultas, que não estão sendo obrigadas a nada, que sejam felizes explorando sua afetividade e sua sexualidade da forma que acharem mais conveniente e prazerosa.

Não é porque eu gosto de vermelho que todo mundo deve gostar também. Bolsonaro não pensa assim. Para mim, é na verdade um grande alívio saber que tenho opinião tão divergente de um político como ele, que defende a tortura, carrega contra si várias acusações por declarações homofóbicas e racistas, prega a pena de morte e já chegou até a propor o fuzilamento do então presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas bobo ele não é. Sabe que esse posiciona-mento lhe rende votos junto a enrustidos e ignorantes. É o paradoxo da democracia, que garante a eleição até de quem a detesta.

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