Estudo mostra que 20% dos estudantes universitários abandonam seus cursos e tentam recomeçar
Maio 7, 2011 Nenhum comentárioEstudo realizado pelo Ministério da Educação revela que um a cada cinco alunos abandonou a faculdade em 2009. O principal motivo disso é que, depois de conseguir sua vaga, muitas vezes após intermináveis horas, dias, meses de estudo, o universitário descobre que, afinal, optou pela carreira errada.
E por que isso acontece? As razões são várias, e vão desde a influência dos pais até a escolha do curso que está na moda. “A maioria das pessoas age por impulso na escolha de uma profissão”, atesta Célio Tasinafo, coordenador pedagógico do curso pré-vestibular Oficina do Estudante, de Campinas.
Segundo o educador, é comum o vestibulando optar, por exemplo, por cursos em evidência no momento, como Gastronomia ou Relações Internacionais, sem sequer saber como é o cotidiano da profissão.
E, quando se dá conta de que errou, o aluno vai ter que decidir se segue em frente assim mesmo ou se começa tudo do zero novamente.
Aimeé Martins Santiago, de 17 anos, encaixa-se nesse segundo caso. Ela prestou Biologia na Unesp (Universidade Estadual Paulista), passou e não gostou do curso.
“Sempre quis Medicina, e acabei passando em algo que não desejava”, admite. “Acabei desistindo da faculdade e voltei para o cursinho. Assim, consigo me preparar para o próximo vestibular, no fim do ano e, quem sabe, com muito estudo e dedicação, eu seja a mais nova médica da família”.
Na idade de Aimeé, parece mais fácil voltar atrás e retomar os estudos e a rotina da preparação para um vestibular. Mas e quem vem ralando há bem mais tempo?
Esse é o caso de Bruno de Carvalho Neto, de 21 anos, que, após dois anos de cursinho, enfim conseguiu uma vaga no curso que tanto queria, de Engenharia de Materiais. E não foi em uma universidade qualquer, mas na Federal de Itajubá (Unifei), em Minas Gerais. Durante todo o ano de 2010, ele frequentou o curso, mas não demorou para perceber que tinha se equivocado. “Sempre gostei de exatas, que compõem o ciclo básico da Engenharia, então foi uma escolha natural”, conta.
O problema começou quando Bruno se confrontou com a disciplina de Estrutura de Materiais, que é a base da carreira que ele havia escolhido. “Foi a pior matéria que já fiz”, diz. Como lhe pareceu insuportável ter que lidar com tal desafio durante o curso todo, decidiu voltar ao cursinho e tentar outra profissão. A escolhida foi Administração.
“Acho que é um curso que me dará uma visão mais ampla, e aí poderei me aperfeiçoar na área que gostar mais”, aposta.
Bruno não considera um tempo perdido o período que já fez de pré-vestibular e de faculdade de Engenharia. “Adquiri bagagem, aprendi a estudar e estou confiante de que vou conseguir entrar numa boa faculdade de Administração”, enumera. Sua primeira tentativa será no vestibular de meio do ano da Unesp, que oferece o curso no campus de Tupã. “Estou me preparando”, avisa.
Mas, se tem uma pessoa que acredita na possibilidade de recomeçar, essa é Ana Paula Mendes Gouveia, hoje com 26 anos.
Em 2002, ela terminou a faculdade de Fisioterapia na Unip (Universidade Paulista), curso onde sempre imaginou que se realizaria. Chegou a fazer pós-graduação em Fisiologia e trabalhou seis meses na área, realizando atendimento domiciliar. Mas, desde o primeiro ano do curso de Fisioterapia, Ana Paula não estava satisfeita. “Pensei em abandonar, era tudo muito básico, tinha matérias de que gostava, mas as aulas não se aprofundavam”, relata.
A partir do segundo ano, as matérias foram ficando mais específicas e ela começou a gostar mais do curso. No quarto ano, também aprovou o período de estágio. “Mas percebi que o fisioterapeuta trabalha muito e é pouco reconhecido”, afirma. Decidiu então que era hora de tentar realizar o velho desejo de se tornar médica.
Porém, ela não pensa em fazer outra universidade particular. “As mensalidades de Medicina são muito caras”, constata. Como a concorrência nas públicas é muito acirrada, já há três anos ela frequenta a sala de aula do cursinho.
Ana Paula ainda reserva uma pequena parte do dia para atender clientes como fisioterapeuta, mas é ao estudo que realmente se dedica. Começa pela manhã e segue até a noite. Tudo pelo direito de tentar ser feliz de verdade em uma outra profissão.
Psicólogo defende flexibilidade
Acostumado a lidar com jovens, o psicólogo Herivelto Zucaratto diz que é preciso ter flexibilidade para voltar atrás de decisões que se mostraram equivocadas. “A flexibilidade é necessária em vários aspectos da vida”, opina. “Não é porque escolheu um curso, que o jovem tem que ficar nele”. Segundo o especialista, um dos fatores que podem levar o estudante a decidir por uma carreira que irá desagradá-lo depois é o próprio período da vida em que tem que tomar essa resolução. Ele explica que é uma fase em que muitos jovens ainda são imaturos.
Sendo assim, o aluno fica suscetível a influências que nada têm a ver com sua verdadeira vocação. Ele conta que atendeu um paciente que decidiu prestar Comércio Exterior porque se impressionou pelo nome do curso. Na faculdade, percebeu que não se identificava com aquelas matérias. Herivelto ressalta, porém, que “imaturidade não depende, necessariamente, da idade”. “Há pessoas de 60 anos imaturas”, ressalta.
Mas, seja qual for o motivo da escolha errada, para o psicólogo, é preciso ter “liberdade para abdicar”. “A sociedade cobra que, uma vez tomada uma decisão, ela tenha que ser seguida”, afirma. “Mas é preciso saber rever conceitos”. De acordo com ele, na hora da escolha, um curso pode atender à demanda do jovem naquele momento. Porém, com o passar do tempo, o estudante pode ir mudando o modo de encarar as coisas. “Há casos em que o que o jovem gosta mesmo é de estudar. Se melhor orientado, ele pode, por exemplo, ir para a área acadêmica”, exemplifica. Caso se sinta inseguro, diz Herivelto, o aluno pode procurar ajuda profissional, como uma orientação vocacional. Outra opção é postergar a escolha, estendendo o tempo de cursinho ou considerando a possibilidade de fazer um curso técnico, até que se sinta mais preparado para tomar uma decisão.
Por Marcos Paulino

