Bullying: Jovens obesos buscam cirurgia
Maio 20, 2011 Nenhum comentário
A população jovem brasileira está engordando. Dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares, realizada pelo IBGE, referente aos anos de 2008 e 2009, mostram que 21,7% dos jovens entre 10 e 19 anos estão acima do peso e mais de 30% das crianças entre 5 e 9 anos estão mais pesadas do que o recomendável.
Com o crescimento da obesidade nas crianças e jovens, cresce também os casos de bullying, que são caracterizados por agressão física ou moral que um indivíduo ou um grupo pratica contra outras pessoas. De acordo com a pesquisa do IBGE, 30% dos estudantes brasileiros já foram vítimas dessas agressões. Esse fato coloca o bullying como um dos principais motivos dos adolescentes para buscar a cirurgia bari-átrica como tratamento para a obesidade.
No ano de 2009, de acordo com os últimos dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), foram realizadas no país 1,5 mil cirurgias em pacientes com menos de 20 anos, representando 5% do total. “A legislação brasileira só permite a cirurgia após os 16 anos, ou esses números seriam maiores ainda”, diz Roberto Rizzi, cirurgião membro titular da SBCBM. “Muitos chegam ao consultório contando o preconceito que sofrem por serem obesos e acham que a cirurgia é a única solução, mas é preciso muita cautela e o paciente deve ser muito bem avaliado pela equipe clínica”.
Mesmo com o assunto na mídia e diversas campanhas para acabar com o bullying e também reduzir o preconceito com os obesos, uma recente pesquisa realizada pelo Hospital do Coração, que entrevistou 600 pessoas no Rio de Janeiro e São Paulo, revelou que 50% da população não se casaria com um obeso, enquanto 81% dos entrevistados afirmam que a obesidade interfere na ascensão profissional.
“Essa é a realidade que vemos no consultório. Muitos jovens obesos que procuram a cirurgia bariátrica têm a vida social e profissional estagnada, muitas vezes por vergonha e por não querer enfrentar o preconceito que realmente existe na nossa sociedade”, destaca Rizzi.
Além da idade mínima, a cirurgia bariátrica só pode ser indicada no tratamento de pacientes com Índice de Massa Corpórea (IMC), ou seja, o peso dividido pela altura ao quadrado, acima de 40. “A cirurgia bariátrica não é uma cirurgia estética”, avisa Rizzi. “O paciente precisa passar por um amplo acompanhamento e já ter tentado perder peso pelas formas tradicionais, incluindo consultas com nutricionistas e endocrinologistas”.
Segundo o especialista, para pacientes com IMC entre 35 e 40, a cirurgia é liberada para casos com doenças relacionadas à obesidade, como diabetes e hipertensão.
Pesquisa aponta que 48% dos brasileiros excedem peso
De acordo com a pesquisa Vigitel (Vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico), 48,1% da população brasileira está acima do peso e 15% são obesos. Há cinco anos, a proporção era de 42,7% para excesso de peso e 11,4% para obesidade.
“O Brasil sempre foi um país reconhecido pelo trabalho de erradicação da fome, da luta pela desnutrição, mas agora temos que focar na obesidade ou, caso contrário, alcançaremos números alarmantes, como os apresentados nos Estados Unidos, num curto período”, diz o médico especialista em obesidade Roberto Rizzi.
Entre os homens brasileiros, 52,1% estão acima do peso. Entre as mulheres, a proporção é de 44,3%. No ano de 2006, a mesma pesquisa apontou excesso de peso em 47,2% dos homens e 38,5% das mulheres. “O crescimento é grande entre homens e mulheres, mas é maior entre os homens, pois eles, na maioria dos casos, não se preocupam tanto com a saúde como as mulheres”, compara Rizzi.
Estudo realizado pelo Centro de Pesquisa Cardio-vascular da Universidade de Glasgow, no Reino Unido, revelou que a obesidade nos homens aumenta em 75% o risco de ataque cardíaco, independentemente de terem ou não outros fatores de risco para o desenvolvimento da doença. O estudo, que foi publicado em fevereiro, na revista científica “Heart”, acompanhou durante 15 anos 6.082 pacientes do sexo masculino que foram diagnosticados com colesterol alto, mas que não tinham histórico de doença cardíaca ou diabetes.
Durante o período do estudo, os pesquisadores observaram 214 mortes causadas por doenças cardíacas e 1.027 pacientes que sofreram ataque cardíaco e/ou acidentes vasculares que não resultaram em óbito.
Mesmo após a exclusão de variáveis relevantes, como idade e histórico de tabagismo, o risco de morte entre os homens obesos, com o IMC entre 30 e 39,9, era 75% superior se comparado aos não obesos. “Muitos pacientes ficam preocupados somente com os fatores de risco, como o diabetes e a hipertensão, porém esse estudo comprova que o grande problema para a saúde do coração é a obesidade”, opina Rizzi. “Os fatores de risco também são complicações que merecem atenção médica, mas temos que considerar em primeiro lugar a prevenção e o tratamento da obesidade, que é responsável pelo desenvolvimento das demais doenças”.
A obesidade causa a expansão do átrio esquerdo e do ventrículo esquerdo, comprometendo a função cardíaca. O átrio esquerdo é responsável por receber o sangue rico em oxigênio dos pulmões e enviá-lo para o ventrículo esquerdo, que bombeia esse sangue para o corpo. “Temos vários estudos científicos que comprovam os danos que a obesidade causa para a saúde do coração”, explica o médico. “O alargamento do átrio esquerdo aumenta o risco de arritmia cardíaca e fibrilação atrial”. Segundo ele, essa alteração no ventrículo esquerdo faz com que o coração utilize mais força para conseguir bombear o sangue, podendo causar insuficiência cardíaca.
Ou seja, é mais uma constatação de que o excesso de peso é bastante nocivo para o coração.
Por Marcos Paulino
