Francamente: E lá se vai a casinha…

Abril 30, 2011 Nenhum comentário

Ontem foi meu aniversário. Posso ouvi-lo, leitor, cantando entusiasmado o “Parabéns Pra Você”, e até se desculpando por fazê-lo com um dia de atraso, mas mesmo assim apresento meus sinceros agradecimentos. Inevitável que, quando chega a minha vez de completar mais uma primavera, eu desperdice alguns minutos em pleno corre-corre dos tempos modernos a pensar em como a vida passa depressa.

Bastou estarmos fazendo, bem nesta época,  uma modificação em minha casa para que, neste terreno fértil para futilidades que é minha mente, apressassem-se pensamentos que fazem transbordar de significados uma obra das mais ralés.

Calma, confuso leitor, atônita leitora, que tentarei explicar. Quando construímos nosso cafofo, instalamos no jardim uma casinha pequenininha, de boneca, como se diz, para minha filha, então com 3 anos, brincar. Calhou, porém, de a pequenina gostar de atividades bem mais dinâmicas que brincar de casinha.

E, como o destino nos brindou depois com um menino, que, como era de se esperar, nunca ligou para a casinha, lá ficou ela, sem muita utilidade. Servia apenas para guardar uns brinquedos velhos. Daí que recentemente a adorável Mel, uma cachorrinha legítima SRD – ou sem raça definida – que adotamos, chegou para movimentar ainda mais o lar. E tornou flagrante a necessidade de fazermos um pequeno canil.

Sem outra opção, era hora de a casinha dar espaço a algo mais útil. Foi-se ela, madeira por madeira, prego por prego, deixando vazio aquele espaço. Quis encarar apenas como uma adaptação à uma nova realidade, mas não pude deixar de pensar que seu fim representava, fisicamente, o que a cabeça muitas vezes se recusa a aceitar: as crianças estão crescendo.

Elas crescem, eu envelheço, uma casinha de bonecas já não faz mais sentido para nós. Sobram as deliciosas lembranças de quando a construímos, imaginando que legal seria ter um espaço daquele para brincar. Tudo está tão nítido na minha memória que nem parece que lá se vai uma dezena de anos. E que anos!

A vida nos conduziu de um lado para outro, deu-nos e nos tirou, negou e presenteou, fez-nos rir e chorar. Pessoas queridas se foram, algumas para sempre, outras só por um tempinho. Amizades esfriaram, novas foram aparecendo. Trabalhos que prometiam decepcionaram, outros surpreenderam. Nessa luta de perdas e ganhos que a vida nos propõe (impõe?), o importante é manter a contabilidade no azul, apontando para o lucro da existência.

Quando era menino, mirava o futuro e imaginava o que seria de mim no ano 2000. Hoje, para vê-lo, tenho que olhar para o passado. E, no embate entre a melancolia e a gratidão, fico sempre com a última.

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