Grupo pernambucano apresenta Chico Buarque em versão balada
Fevereiro 19, 2011 Nenhum comentário
Tirando o vocalista Tibério Azul, com seus 31 anos, todos os integrantes da cooperativa Seu Chico, de Pernambuco, estão na casa dos 20 anos. Fosse uma banda de rock, a idade não chamaria a atenção.
Mas, em se tratando de uma reunião de músicos que se dispõem a fazer uma releitura da obra de Chico Buarque, essa informação ganha interesse. Afinal, por que artistas tão jovens se interessaram pela música de um compositor que tem mais anos de carreira do que eles de vida? “Desafio”, esclarece Tibério.
Interessados em se aperfeiçoar, Bruno Capim (percussão), Negro Grilo (percussão), Rodrigo Samico (violão de sete cordas), Vítor Araújo (piano), Amendoim (percussão) e Vinícius Sarmento (violão) se aproximaram das músicas de Chico considerando-as material de estudo. Mas se descobriram fãs do carioca e decidiram temperar as canções com suas referências. Mas e essa história de cooperativa?
Tibério explica que a Seu Chico difere em sua concepção de uma banda por se tratar mais de reunião de músicos que têm suas carreiras próprias. E que vão tocando “por demanda”, conforme surgem os convites, com o objetivo de mostrar que a obra de Chico Buarque também pode frequentar festas e boates.
Uma dessas apresentações, na Estrela da Lapa, no Rio, foi gravada para dar origem ao CD e ao DVD “Tem Mais Samba”, recém-lançado. Nos extras, cenas de um encontro com o próprio Chi-co, onde rolou até uma partida de futebol. Tibério conversou com o PLUG sobre esse projeto.
Como surgiu a ideia desse projeto da Seu Chico?
Não foi uma coisa muito pensada. Todos na banda têm carreiras autorais individuais e durante um tempo quisemos nos reunir com os amigos pra tocar músicas de forma comemorativa. Também nos sentimos muito desafiados pela obra de Chico Buarque, pela dificuldade que acarreta. É uma riqueza muito grande. Na verdade, começamos estudando Chico pra enriquecer nosso vocabulário. Quando começamos a tocar, percebemos que a obra do Chico é gigante e, muito empolgados com nossas reuniões, resolvemos fazer um show pros amigos. Esse show acabou lotando e o dono da casa pediu pra gente continuar uma temporada. Era uma casa pequena, mas aberta, então da rua dava pra ver o show. Em três meses, começou a dar tanta gente que pela primeira vez tivemos que encerrar uma temporada por excesso de público. (Risos) O quarteirão lotava e a prefeitura começou a multar o bar. Dessa demanda, resolvemos levar o projeto adiante. Mas levaram mais dois anos pra virarmos uma banda.
Por que resolveram fazer uma releitura da obra de Chico Buarque?
Não pensamos muito. O que nos levou à obra do Chico foi a dificuldade técnica. Todos os músicos da banda, aí me excluo um pouco, têm uma capacidade técnica muito grande. Eles são prodígios e se sentiram desafiados pela obra do Chico. Essa foi a porta de entrada, e a partir de então viramos fãs incondicionais.
Vocês tiveram a oportunidade de conhecer o Chico pessoalmente. Como foi esse momento?
Quando fomos gravar o DVD, o pessoal da equipe dele ligou dizendo que ele estava nos convidando pra uma partida de futebol. Percebemos o tamanho de fãs que éramos quando chegamos lá. Os extras do DVD mostram os melhores momentos desse encontro, porque no restante estamos calados, babando, olhando pra ele. Ficou uma coisa meio sem graça. (Risos) O futebol até ajudou, porque ficamos meio bobões. Não gostaria de perder isso pelos ídolos, acho legal manter essa idolatria.
Vocês se tratam mais como uma cooperativa do que como banda. Como funciona isso?
Se você pensar em banda, tem um contexto da formação, todo mundo presente, o foco está ali dentro. A Seu Chico a gente tem como uma cooperativa porque todo mundo tem seus trabalhos individuais e esses trabalhos autorais é que fazem que estejamos dentro da Seu Chico. A ideia é exatamente levarmos nossas coisas pra juntar nossas características e fazer isso de alguma forma dar certo.
Os integrantes da Seu Chico são bem novos. Vocês sentem que estão levando a obra de Chico Buarque para o público jovem?
Sentimos e nos orgulhamos disso. Minha geração costuma definir o que é música pra ouvir e música pra se divertir, isso acaba deixando a MPB pra trás. Chico e Caetano ficaram como músicas sérias, que só podem ser ouvidas em casa ou no carro. A gente meio que confunde esses termos. Tocamos Chico Buarque – e não há nada mais sério e denso que ele – de um jeito divertido, na boate, pro pessoal mais novo dançar, beber, paque-rar. Quebrando essa referência, acho que a gente ajuda a acabar com esse preconceito e a abrir a porta pra quem ainda não conhece. Não só a obra do Chico, mas o cuidado com a letra, com a harmonia, com a melodia. As pessoas se acostumando a ouvir isso novamente vão ampliar as referências e ficarão mais criteriosas.
Chico Buarque não é exatamente popular. A Seu Chico pode tornar a obra dele mais palatável para um maior número de pessoas?
Exatamente. Isso é muito legal. A música é uma coisa que rompe barreiras muito fácil. Uma parede não consegue vetar uma música. Tocamos nas favelas da Rocinha e do Pavão-Pavãozinho, no Rio, que foram shows que nos orgulharam muito. Fizemos shows em várias cidades pequenas do interior de São Paulo, num projeto do governo do Estado. Como temos o rótulo de tocar Chico Buar-que, muita gente vai ao show com o ouvido meio trancado. E aí usamos nossas armas, que são a alegria, a juventude, a ousadia. Muita gente vem falar que achava que seria uma coisa meio parada, voz e violão, mas mostramos que a música não tem limite.
Vocês farão uma turnê de lançamento do DVD?
Faremos. Depois que gravamos o DVD, tivemos que nos profissionalizar, o que foi uma coisa boa. Sempre tocamos de improviso, mas agora estamos definindo o repertório, essas coisas. Temos tocado muito em São Paulo e no Rio, mas estamos abrindo novas praças, como Minas, onde fomos pela primeira vez, Brasília e um pouco do Nordeste. Lançamos o DVD oficialmente em São Paulo e no Rio. Temos outros shows agendados para São Paulo e Brasília e vamos seguindo nos espaços abertos.
Por Marcos Paulino
