Francamente: Eu e Lula temos o mesmo desejo
Janeiro 8, 2011 Nenhum comentário
Em uma de suas últimas declarações como presidente da República, Lula contou que pretende voltar a assistir a um jogo do Corinthians no Pacaembu sentado na arquibancada. Eu também tenho essa vontade, mas creio que não haverá sequer uma pessoa tentando tirar uma foto minha. Entretanto, imagine o que aconteceria se o ex-presidente aparecesse no estádio paulistano com a barriga protuberante estufando a camisa do Timão, radinho de pilha colado no ouvido e uma lata de cerveja na mão. E o interessante é que não soa nada estranha a cena.
Afinal, Lula passou os oito anos de seu governo cultuando a sua imagem e semelhança de povão. Mesmo após tanto tempo no poder, mantém aquele semblante operário, apesar de não se atrever a chegar perto de um torno para valer há décadas. Contudo, não dá para enxergar um ex-presidente acomodando uma almofada no cimento da arquibanda do Pacaembu para não machucar o traseiro. Seu lugar para ver o jogo do seu time no estádio seria em um camarote, cercado de toda a segurança que sua posição pede.
Lula sabe muito bem disso. Mas quer manter em alta sua popularidade, e ninguém deve discordar de que conseguirá. Dizer que quer continuar ao lado do povão, numa partida de futebol ou em qualquer outro lugar, faz parte desse plano. Porém, chama a atenção como no Brasil os ex-presidentes se esforçam para voltar a ser pessoas ditas normais. Fica mais estranho ainda se houver comparação com os Estados Unidos, onde os ex-mandatários máximos da nação são considerados verdadeiras entidades.
Nem se concebe por lá que um Bill Clinton, mesmo que a lei permitisse, disputasse uma cadeira no congresso americano. Mas Itamar, Sarney e Collor estão aí para provar que os ex-presidentes brasileiros não se intimidam em voltar às trincheiras da guerra eleitoral. Fernando Henrique Cardoso, que li e ouvi durante as últimas eleições em entrevistas dignas e conscientes, é uma já esperada exceção.
Ex-presidentes não precisam se enclausurar em redomas de vidro. Pelo contrário, devem utilizar sua incrível experiência para contribuir para a perenização e o aperfeiçoamento da democracia. Mas deveriam se esforçar para manter uma posição de imparcial distanciamento, em vez de se rebaixar ao engalfinhamento da política partidária cotidiana. Todavia, quem consegue imaginar Lula contentando-se com enfadonhos chás da tarde na sede da ONU?
Nosso ex-presidente vai querer continuar indo para a galera. Ele quer jogar sinuca no boteco, bater bola no campinho do bairro, fazer fiu-fiu para a mulherada na rua. Só não pretende trabalhar, porque aí já seria demais.
