Francamente: Deputado Tiririca: Jekyll ou Hyde?

Janeiro 15, 2011 Nenhum comentário

O humorista Tom Cavalcanti me provocou, recentemente, uma reflexão. Amigo de Francisco Everardo Oliveira Silva, o deputado mais votado do país nas eleições de 2010, Tom fez o seguinte comentário: “Criaram esse monstro para ele e esqueceram de falar do cara centrado que é o Tiririca, do ser humano generoso e humilde que ele é”. E prosseguiu: “A gente lutou tanto pela democracia e quando uma pessoa do povo, mais simples, logra êxito, há uma reação contrária. Falaram demais. Ele nunca foi analfabeto. Lê normalmente, decora textos como ninguém”.

Parei para pensar, numa espécie de mea culpa. Fui um desses que “falaram demais” sobre a eleição do Tiririca. Tom tem razão. Se estamos numa democracia que possibilita que o mais humilde dos cidadãos, desde que minimamente alfabetizado, seja eleito para um cargo público, temos que louvar o sistema, e não criticá-lo. Conterrâneo do cea-rense Tom, Tirica, hoje com 45 anos, começou a trabalhar aos 8, num circo na sua Itapipoca natal. Ralou em pequenos shows de humor até que viu estourar a canção “Florentina”, sucesso em todo o país, que o levou para a televisão.

O resto da história todo mundo sabe. Em outubro, 1.348.295  brasileiros votaram nele para deputado federal por São Paulo. Essa votação para uma vaga na Câmara Federal só é menor, na história, que a de Enéas Carneiro, morto em 2007, que em 2002 recebeu 1,571 milhão de votos. Se o povo confia em Tiririca tanto quanto os números comprovam, e se ele provou que sabe ler e escrever, só resta respeitá-lo e torcer para que consiga fazer um bom trabalho.

Porém, dito tudo isso, a velha pulga me fisga sem parar atrás da orelha. O povo votou em Tiririca, mas quem assumiu a cadeira na Câmara foi Francisco Everardo Oliveira Silva. O dono da vaga não é a criatura, mas sim o criador. Que, logo, completará um mês como deputado e terá direito a um salário, recém-reajustado, de R$ 26,7 mil. Em sua primeira visita à Câmara após a eleição, justamente no dia em que o novo valor dos proventos dos deputados foi aprovado, Francisco Everardo comemorou aquilo que chamou de “sorte”.

O médico Enéas, o campeão de votos, também assumiu um personagem, mas foi apenas o Dr. Jekyll, e não o que se esperava dele, que fosse o Sr. Hyde, o monstro que assombraria os corruptos do Congresso. Seu bordão “Meu nome Enéas!” não ressoou para fazer tremer os bandidos fantasiados de parlamentares, apenas entrou para o anedotário eleitoral brasileiro. Francisco Everardo é quem tem a chance agora de provar que os milhões de votos que recebeu não foram em vão. Resta saber se é ele quem realmente assumirá a cadeira. Ou se é o Tiririca.

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