Francamente: A ética e suas conveniências
Dezembro 4, 2010 Nenhum comentário
Interessante como a ética nos toca de maneiras diferentes, conforme nossas conveniências. E peço licença para utilizar o esporte, assunto de que gosto muito, para exemplificar essa observação. Quando Rubens Barrichello e Felipe Massa deram passagem a seus companheiros de equipe durante provas de Fórmula 1, porque os colegas estavam em melhor situação para ganhar o campeonato, ouvi muita gente criticando a “falta de esportividade” da Ferrari.
O mesmo aconteceu quando a seleção brasileira de vôlei masculino não fez força alguma para ganhar uma partida da Bulgária no último Mundial, já que a derrota, ironicamente, significaria um caminho mais fácil até a final. Muitas vozes se levantaram contra Bernardinho e seus comandados. É melhor perder com honra que entregar um jogo tendo o regulamento debaixo do braço, essa foi a tônica.
Vale ressaltar que, no caso da Ferrari, tratou-se de uma estratégia interna, um arranjo entre seus pares, com o objetivo de conquistar o título. Quando Rubinho abriu caminho para Schumacher, deu certo e o alemão foi o campeão. No caso de Massa, Fernando Alonso bateu na trave. Nas duas situações, não se tratou de um complô contra terceiros, mas de uma combinação dentro da própria casa. E, com relação ao vôlei, ninguém foi diretamente prejudicado e os brasileiros conquistaram mais um troféu.
Agora, neste Brasileirão, São Paulo e Palmeiras deliberadamente entregaram seus jogos contra o Fluminense, rival direto do Corinthians na briga pelo título. E nós, corintianos, nem podemos nos queixar, porque no ano passado nosso time fez corpo mole contra o Flamengo, que brigava pelo campeonato contra palmeirenses e são-paulinos. E aí um monte de gente que criticou a Ferrari e a seleção de vôlei comemorou a marmelada. Ou seja, montou-se a defesa de que os fins justificam os meios. Às vezes, quando nos interessa.
Isso não é exclusividade do esporte, é claro. A ética, não só no Brasil, mas aqui em especial, anda por caminhos tortuosos. Ou você não conhece alguém que bate no peito orgulhoso de sua honestidade, mas que não vê mal algum em oferecer um cafezinho ao policial para não levar uma multa? Que adora botar banca de íntegro, mas que não hesita em parar o carro em fila dupla na hora de pegar o filho na escola?
Sim, porque a malandragem não está só nas grandes negociatas, nos escândalos envolvendo parlamentares e subornos. Está também nos cotidianos e corriqueiros atos. Foi trocando pequenos favores por silêncio que a bandidagem acabou tomando os morros cariocas. Deu no que deu. E hoje vemos nossos times de futebol dando um péssimo exemplo. Meu filho, de 7 anos, até agora não conseguiu entender direito o que está acontecendo. E é tão constrangedor explicar…
