Estudo mostra que adolescentes têm desvio da imagem corporal na percepção de peso

Outubro 2, 2010 Nenhum comentário

Uma pesquisa de doutorado sobre hábito alimentar, realizada numa escola pública da periferia de Campinas, revelou um desvio da imagem corporal na percepção de peso dos adolescentes avaliados. Dos 126 alunos selecionados, com idade entre 12 e 18 anos, 74,6% estavam com o peso normal em relação à altura por idade. Em contrapartida, apenas pouco mais da metade (58%) julgou adequadamente o seu peso, sendo que 23% estavam acima do mencionado.

Quando foram separados por gênero, das 64 meninas estudadas, 17% superestimaram o seu peso, achando que pesavam mais; e dos 62 meninos avaliados, 16,1% o subestimaram, achando-se mais magros do que na verdade eram. O trabalho, defendido na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, é de autoria da nutricionista Ana Lúcia Alves Caram e foi orientado pela gastropediatra Elizete Aparecida Lomazi da Costa Pinto.

Segundo Ana Caram, parte desse desvio de percepção pode ser atribuída à busca incessante de uma imagem corporal idealizada por esses adolescentes. A nutricionista sinaliza que, nesta fase, eles estão vivenciando intensas mudanças (somáticas, hormonais e psicológicas) e “fechando” muitas definições. Por esse motivo, o estudo propôs compreender se tais mudanças estariam afetando inclusive a sua alimentação.

Além dos hábitos alimentares, a tese também investigou o estado nutricional e a atividade física dos adolescentes. No atendimento clínico, Elizete e Ana têm visto muitos transtornos no campo nutricional. A substituição do alimento in natura por alimento industrializado rico em calorias talvez seja o maior deles. O alimento industrializado, em algumas si-tuações, pode apresentar perdas do potencial nutricional, além do acréscimo de aditivos, estabilizantes e edulcorantes.

“Obviamente, não podemos deixar de salientar que a tecnologia desenvolvida pelas empresas alimentícias também tem a sua contribuição quanto ao desenvolvimento de alimentos de boa qualidade nutricional”, pondera Elizete.
O importante é que os consumidores saibam escolher adequadamente seus benefícios. Os alimentos naturais são ricos em fibras – como as frutas, verduras, grãos e cereais, especialmente o farelo de trigo. A substituição de alimentos naturais por industrializados pode ser complicada, alerta a gastropediatra, por poder gerar problemas de crescimento, sintomas gastrointestinais e dor abdominal. A constipação intestinal foi detectada em cerca de 10% dos adolescentes.

HÁBITOS

A pesquisa avaliou as peculiaridades de cada alimento e a frequência de consumo por dia. “Os relatos da literatura dão conta de afirmar que os adolescentes quase não estão consumindo mais frutas e verduras, enquanto as guloseimas prosseguem em alta”, descreve Ana Caram. Órgãos como o Ministério da Saúde sustentam que as pessoas deveriam consumir de cinco a seis refeições ao dia.

Grande parte dos adolescentes pesquisados (80%) fazia todas as refeições, mas 20% iam para a escola sem o café da manhã. “Estudos comprovam que não fazer este consumo pode comprometer a concentração e a taxa de glicemia cerebral, resultando em baixo rendimento escolar. Com a ingestão do café da manhã, segundo alguns artigos, desenvolve-se um fator de proteção contra a obesidade”, aponta a nutricionista.

Uma recomendação de Ana Caram é não pular refeições e nem substituí-las. “Muitas vezes, o adolescente deixa de consumir o jantar e o troca por um lanche inadequado. O ideal é que a pessoa consuma arroz, feijão, carnes variadas, como o frango, o peixe e a carne vermelha com baixo teor de gordura, folhas e legumes. Um prato bastante colorido, dentro da proporção de suas necessidades nutricionais: este é o conceito de um prato saudável”.

O consumo de quatro ou mais vezes na semana de um determinado alimento é pontuado como hábito. Com relação à constipação intestinal, não adianta apenas consumir frutas e verduras. “Tem que beber muito líquido e ingerir muitas fibras, presentes também nos cereais associados, para ter um bom trânsito intestinal”, afirma a nutricionista.

Mais de 90% dos adolescentes relataram praticar atividade física. Apesar de a população se mostrar saudável, mesmo assim a pesquisa encontrou 23% dos adolescentes acima do peso, descortinando um alto consumo de doces e guloseimas como hábito.

A gastropediatra acredita que alguns desencontros quanto ao que é saudável, como a questão do desje-jum e hábitos relacionados com excesso de caloria vazia (alimentos que apenas têm energia e baixo teor de proteínas, vitaminas e sais minerais), poderão ser trabalhados nesta população. Um programa de educação nessa área seria fundamental, centra-do na importância do desjejum, do consumo de todas as refeições de uma forma adequada, como o jantar à mesa, em casa, para profilaxia da obesidade, e da fibra na profilaxia da constipação.

PREVENÇÃO

“Propomos a identificação de problemas, demarcando o que é erro alimentar e tentando envolver na ação não somente a nutricionista, mas toda a equipe escolar, desde a diretora até a cozinheira que oferecerá a merenda”, destaca a médica. A ideia é que, educando crianças e adolescentes, sejam prevenidas as doenças crônico-degenerativas tão comuns no adulto, em sua melhor fase.

Testando os potenciais de um ambiente escolar para prevenir as doenças decorrentes do hábito alimentar no futuro, Ana Caram ressalta que o carboidrato identificado nesses adolescentes teve a ver em particular com as guloseimas, que devem ser desestimuladas, por não serem saudáveis.
Outros carboidratos em geral estão presentes na base da pirâmide alimentar e são de boa qualidade, de-vendo ser encorajados. São eles os pães integrais, o arroz integral, os cereais e mesmo as frutas, fontes de frutose, que não entram na base da pirâmide, todavia vêm um pouco acima da base, consideradas alimentos reguladores do metabolismo.

Para a gastropediatra, algumas ações serão interessantes, como algum subsídio para o alimento mais saudável, impostos maiores para alimentos supérfluos e de ação de mar-keting apontando os efeitos deletérios do excesso de caloria, sódio e gor-dura, como a feita no caso do cigarro.

“Ressaltar os efeitos prejudiciais do cigarro tem trazido sensibilização. Isso já foi feito com relação às gorduras trans, quando as pessoas passaram a entender que elas estão ligadas a doenças degenerativas. Hoje a população confere os rótulos desses produtos antes de comprá-los”.

Por Marcos Paulino

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