Francamente: Espectadores do inferno
Agosto 21, 2010 Nenhum comentário
No meu escritório, tem um pequeno televisor, que mantenho ligado enquanto trabalho, especialmente pela manhã. Gosto de ir assistindo – mais ouvindo que vendo, na verdade – o noticiário enquanto batuco meus textos no teclado do computador ou gasto incontáveis horas diárias na internet, mandando e recebendo e-mails, trocando informações por um desses programas de mensagens online, buscando mais detalhes para algum trabalho, enfim, permanecendo em conexão com este mundão de meu Deus.
Confesso, porém, que, para alguém como eu, pouco chegado às notícias policiais, tem sido cada vez mais sacrificante manter a TV ligada. Mesmo programas mais “light”, como o “Mais Você”, da Ana Maria Braga, têm apelado para casos escabrosos. Tem sido cada vez mais frequente ver a apresentadora chamando longas reportagens sobre histórias cabeludas de violência e, mais, alongando o assunto com entrevistas ao vivo em estúdio.
Talvez seja uma estratégia da Globo para combater a crescente audiência de programas como o “Fala Brasil”, da Record, que investe pesado em temas policiais. Mesmo o “Hoje em Dia”, da mesma emissora, outra chamada “revista eletrônica” de variedades, força a barra nos casos de assassinatos, roubos, sequestros e outras barbaridades.
É preciso ter estômago forte para acompanhar tanta desgraça a manhã inteira. Isso sem contar o que lemos nos jornais ou acessamos nos sites. É violência para todos os gostos. Maridos que matam a mulher, a sogra ou ambas. Pais que torturam filhos. Crianças que chefiam quadrilhas. Famílias feitas reféns. Rebeliões em presídios nas quais há espancamento de presos e de agentes penitenciários. Casos e mais casos de bullying.
Tudo amplamente registrado por câmeras que tornaram todo portador de um celular um cinegrafista em potencial. Agora não apenas somos informados do que aconteceu, mas podemos assistir o mundo cão em todas as suas matizes, já que as camerazinhas dos telefones móveis e de outros apetrechos eletrônicos estão cada vez mais sofisticadas.
Há também sempre aquele amigo disposto a passar para a frente e-mails com fotos de um corpo – ou o que sobrou dele – encontrado ou com vídeos que exibem mortes causadas por acidentes ou por execuções.
Cenas que antes víamos em filmes como os do Conan ou do Rambo agora frequentam as telas das nossas tevês e computadores com a maior naturalidade. Já não basta mais sabermos que o inferno está bem ao nosso lado. Que cada passo nas ruas equivale a caminhar num campo minado. É necessário que montanhas de imagens nos lembrem disso a cada minuto, como que a nos convidar a comemorar porque a vítima não somos nós.
