Francamente: A era de ouro do neosertanejo

Agosto 28, 2010 Nenhum comentário

Meu pai gostava de música sertaneja. Gostava do jeito dele, ou seja, ouvia se tocava no rádio, sem prestar muita atenção. Lembro-me do Motorádio que ficava no criado-mudo ao lado de sua cama, por onde saíam os bordões do Toninho da Engenhoca. “Aqui debaixo do pé de manga-rosa o cebolão tá marcando dois minuto pras cinco pras sete”, anunciava o locutor, enquanto meu pai fumava o primeiro cigarro do dia, já se preparando para o trabalho.

Ciente do gosto musical do meu velho, em uma ou duas ocasiões eu lhe dei de presente discos do Sérgio Reis. Se eles tocaram na nossa vitrola uma meia dúzia de vezes foi muito. Enfim, meu pai não era um grande aficionado por música. Mesmo assim, talvez por sua influência, tentei gostar de sertanejo durante um período da minha adolescência. “Raiz!”, eu fazia questão de frisar, tentando criar certo orgulho caipira. Até cheguei a gravar uma fita com alguns clássicos.

Mas não deu. Aquela realmente não era minha praia. Era uma época em que duplas mais tradicionais, como Milionário e José Rico, Tonico e Tinoco e João Mineiro e Marciano começavam a dividir espaço com uma nova geração, cujo caminho ia sendo aberto por Chitãozinho e Xororó. De qualquer modo, o sertanejo era um gênero restrito ao interior de alguns Estados.

Era um tempo em que as letras falavam do dia a dia no campo, de carros de boi, de meninos da porteira, de reis do gado, de dramas entre pais e filhos em casas de pau-a-pique, de cavalos e de joões-de-barro. O tempo, entretanto, foi passando e as novas levas de sertanejos iam tendo cada vez menos identificação com a zona rural. Até que se chegasse neste estilo em que artistas como Luan Santana insistem em colar o rótulo “sertanejo”. Mas que é outra coisa.

Não podem ser sertanejos cantores com cabelos modernosos lambusados de gel e paletós impecáveis. Que cantam letras recheadas de gírias urbanas embaladas num ritmo que tem muito mais a ver com a batida do iê-iê-iê do que com a viola caipira. Não entenda essa análise como uma crítica. É só a constatação de que a verdadeira música popular que domina o Brasil tem muito mais a ver com baladas country do que com sertanejo.

É disso que o povo gosta. Basta checar a programação da Festa do Peão de Limeira deste ano: em oito noites, oito shows desse estilo. Bem diferente de outras edições, em que roqueiros e sambistas dividiam a atenção do público, mesmo sendo esse, notadamente, um evento voltado a um público que gosta de se ver como caipira.

Não há uma só festa ou quermesse ou balada jovem hoje em que o neosertanejo não tenha espaço. E há cada vez menos meninos da porteira pedindo para o “seu moço” tocar o berrante.

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