Fafá de Belém relança disco de fado e se mostra antenada com a nova geração

Agosto 7, 2010 Nenhum comentário

Uma das cantoras mais conhecidas do Brasil, Fafá de Belém se mostra antenada. Enumera de pronto vários nomes da nova geração de intérpretes nacionais e revela que é frequentadora assídua da internet.

Aos 35 anos de carreira, acredita que tem penetração junto ao público mais jovem e se gaba do fato de sua agenda de shows estar lotada. É nessa fase que Fafá está relançando “Meu Fado”, um disco que reúne clássicos da música típica portuguesa, gravado em 1991 e que fez grande sucesso em terras lusas e brasileiras.

A regravação do disco, agora re-masterizado, serve como pretexto para uma conversa sobre vários assuntos com a cantora, que tem muito a dizer. Nesta entrevista ao PLUG, ela proclama, em meio à sua característica gargalhada: “Nunca saí da moda!”.

Por que você decidiu relançar o “Meu Fado”?
Estou fazendo 35 anos de carreira e esse disco é muito importante para mim. É o único disco de fado feito em Portugal por uma cantora brasileira. Foi feito a pedido do mercado português e produzido pelo produtor da Amália Rodrigues. Quando recebi esse convite, fiz um ano de pesquisa, e naquela época não havia internet. Era fita cassete pra cá e pra lá (Risos). Foram cartas, faxes, trabalhando num repertório que fosse representativo. A ideia era revita-lizar o fado, que estava fechado num gueto antigo e não chegava ao público mais jovem. Fui escolhida entre três cantoras brasileiras e torci muito para que isso acontecesse. Em uma semana, conseguimos o disco de ouro. No Brasil, vendeu perto de 500 mil cópias. Depois de um ano e pouco, a Som Livre tirou do mercado, e desde então me pedem que relance. A Sony, que tem o fonograma, topou e negociamos por dois anos. Em janeiro, chegou a autorização.

Você é uma cantora muito conhecida pelas gerações mais antigas. Você acha que tem penetração também entre o público mais jovem?
É muito louco: eu tenho mais penetração que meu trabalho. Me considero sem idade (Risos). Sou muito curiosa, vou buscando vários caminhos. Estive em Londrina recentemente, num festival junto com a orquestra sinfônica da cidade, me apresentando para um público de mais de 5 mil jovens, que são alunos da universidade e de outras escolas de música. Eles me têm como referência a partir dos pais. Na minha carreira, em momento algum posei de diva ou prima-dona. Isso agrega e possibilita falar com vários olhares. E o segmento mais jovem se liga em mim muito mais pela atitude que pela música. A Sony Portugal credita o novo boom de fado a partir desse meu disco, que foi lançado em 1991. Àquela altura, falamos com um público português muito jovem.

O seu repertório de MPB também encontra público entre os jovens?
Estive na Virada Cultural em São Paulo, e o Teatro Municipal es-tava absolutamente lotado. Fiz o Canecão, e o público era fundamentalmente jovem. Meu trabalho do final dos anos 70 fala muito aos jovens, assim como o “Vermelho”, quando volto a falar com um grande público com alegria.

Os artistas mais novos já se lançam utilizando a internet. A sua geração também está aprendendo a usá-la?
Meu site tem conexão com tudo. Foi feito por uma turma superantenada, como se fosse um blogão. Meu MySpace está sendo feito agora. Me apresentaram umas coisas caretas, mas quero velocidade. Ainda tuíto sem parar e estou todo dia no Facebook (Gargalhadas). Não sei botar fotos e filmes, mas tenho esse contato com o público jovem.

Nessa época de se baixar músicas gratuitamente pela internet, o relançamento de alguns trabalhos, como o seu, parece a tentativa da indústria fonográfica de encontrar outro nicho, das pessoas que querem o álbum original, com encarte e tudo mais. Como você vê isso?
A indústria fonográfica, em determinado momento, fez a opção do marketing, esquecendo um pouco o artístico. Era uma época de músicas em fornadas e de rádios previsíveis. A internet, que é o instrumento mais democrático do planeta, abriu possibilidades de dizer que não era só aquilo. Há outros modelos, há gente nova surgindo no mundo todo. São pessoas que não têm o nicho de mercado com resultado financeiro, mas que podem postar na rede e ter olhares sobre seus trabalhos. Com isso, a indústria repensa seu papel. Desde 2000, venho licenciando meus fonogramas para a indústria. Com isso, posso liberá-los. Meu próximo passo é ter, no meu site, todas as cifras de tudo que gravei até hoje. A música deve ser o espaço de convivência mais democrático do mundo, e a internet possibilita isso. Mas não baixo música de graça. Gosto do produto físico e acho que temos que preservar o direito do autor. Porque o cantor e o músico fazem shows, mas o autor vive da criação dele. E esse direito deve ser remunerado.

Há uma fornada de jovens cantoras surgindo no Brasil. Você tem acompanhado esse movimento?
Nunca desde os anos 80 surgiu uma fornada tão saudável de novas cantoras. Tem a Fabiana Coz-za, que acho maravilhosa, tem a Tiê, tem a Céu, que faz uma mistura de tradicional com eletrônico de que gosto muito, tem muitas mari-anas boas, como minha filha, que vai lançar um disco (Gargalhadas). Estou encantada de ouvir o tecno-brega da Gaby Amarantos, a música de raiz da Juliana Sinimbú, a Mallu Magalhães, a Maria Gadú, a Teresa Cristina, a Roberta Sá, en-fim, tem muita gente nova fruto da abertura da internet. Ouço tudo que está acontecendo. E essas meninas têm uma maneira muito mais cool de estar na música.

Além de seu talento, você sempre foi conhecida também por, digamos, alguns atributos físicos. Com essa história da mu-lherada colocar silicone, também nesse quesito você está de novo na moda?
Nunca saí da moda, não sou é over nem faço graça para aparecer em revista (Gargalhadas). Cada um faz o que quer com seu corpo. Enfrentei muito preconceito porque não era magra, usava decote e não sei o quê. Nunca dei bola pra isso. Estar na moda é estar em paz consigo e ter uma agenda lotada de shows (Gargalhadas).

O “Meu Fado” vai ter uma turnê especial?
O lançamento oficial será na segunda quinzena de agosto, com uma turnê em cinco capitais.

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