Mente Sadia: Meu amigo
Julho 24, 2010 Nenhum comentário
Meu amigo, como tantos outros, sofre de aversão ao trabalho. Para muitos, um vagabundo que vive às custas dos outros.
Ele não se engaja no sistema produtivo, faz o necessário para o próprio sustento, principalmente do cigarro e sua bolachinha noturna. Vê no trabalho produtivo uma perda de tempo, uma idiotice, uma busca frenética pelo dinheiro, que compra coisas fúteis, passageiras, que dão ao comprador a falsa impressão de poder, mas que na verdade os torna escravos de um sistema de consumo que valoriza o ter em detrimento do ser, isto é, valoriza as pessoas pelo que possuem e não pelo que são.
Meu amigo não tem, é. É ele mesmo, a despeito do que acham ou digam; transita pela vida sustentado por convicções e crenças que o mantêm à margem do que poderíamos chamar de politicamente correto.
Por sua aparência não convencional e por seu histórico (“perdeu chances de bons empregos…”), sofre o rechaço de quem o desconhece, ajudando-o a conviver com outros sujeitos, que, à margem também do sistema, se isolam em pequenos grupos.
Meu amigo lê, lê muitos autores desconhecidos da grande maioria da população, com isso amplia sua criticidade, e se difere ainda mais dos não letrados, confabulando consigo mesmo sobre as coisas da vida. Possui a ânsia do saber.
Meu amigo não acumula bens materiais, nem cogita “mudar de vida” para ganhar dinheiro e perder a liberdade. Gosta do descompromisso com horários e pessoas, no entanto discute ideias de escritores profundos, relê várias vezes o que o equivoca, não deixa barato, pois não é uma leitura de produção para a disciplina tal, para o professor Y; lê para seu próprio deleite. Pros desavisados, é um sujeito esquisito, com comportamentos estranhos e hábitos incomuns.
Meu amigo também sofre, sofre por paixão, por preconceito, por humilhação; sofre por ter uma vida inteira e não ter o controle na sua mão.
Meu amigo também é feliz, é feliz porque sabe que tem um amigo que o ama incondicionalmente e escuta o que ele diz.
Meu amigo, assim como eu, embora andemos por caminhos diferentes, sabe que, nesta vida, somos eternos aprendizes.
