Francamente: Conectados, mas tão distantes…

Julho 24, 2010 Nenhum comentário

Não me canso de escutar histórias do pessoal de mais idade, que relatam as dificuldades de um dia a dia nem tão distante, mas que parece ter sido vivido há séculos. Se antes cada avanço significativo da tecnologia era medido em anos, ou décadas, hoje tudo se atropela em questão de dias.

Quando surgiu o rádio, por exemplo, segundo depoimentos que ouvi, as famílias se reuniam em volta do aparelho para tentar captar algum chiado que fosse. E, quando dava para reconhecer a voz do locutor ou apreciar uma música, era uma festa.

Nos primórdios da TV no Brasil, era comum que os donos dos aparelhos recebessem os vizinhos para acompanharem juntos a novela do momento ou um jogo de futebol. E cada um usava sua criatividade para melhorar a performance de seus equipamentos. Entre os acessórios, valia esponja de aço no topo da antena para expandir a recepção do sinal e plástico na frente da tela para aprimorar o visual.

Era uma época em que havia tempo para que cada um assimilasse os novos passos da tecnologia e se acostumasse às novidades aos poucos. Era também um período em que, ao que parece, a eletrônica mais unia as pessoas do que separava. Uma vitrola e um disco podiam transformar a sala numa pista de dança, em que pais, filhos, irmãos, tios, avós e amigos rodopiavam em sintonia.

Claro que essa é uma visão romanceada do passado. Mas é também uma aflição de quem precisa estar com os olhos e ouvidos ligados 24 horas por dia, sem nem ao menos ter tempo de se acostumar à alguma nova tralha tecnológica antes de ter que aprender a lidar com outra. Tudo é virtual, os bate-papos, as amizades, os namoros e até o sexo. Os fones de ouvido isolam pessoas como o garoto que, ao meu lado num banco, batucava no ar, sem se dar conta do ridículo da situação, já que ninguém compartilhava da música com ele.

Dias atrás, eu conversava por meio de um programa de mensagens eletrônicas com um companheiro de trabalho. E ele me relatava que, além de mim, mantinha contato com várias outras pessoas, simultaneamente, via internet, celular e telefone. Dei-me conta de que, frequentemente, também vivo essa situação. Num velório, recentemente, sucediam-se tantos chamados de celulares, que foi difícil ouvir as palavras do amigo incumbido do adeus.

Hoje ninguém mais se desliga. Vivemos a era do tudo ao mesmo tempo. E agora. Do cada um no seu quadrado. De muita tecnologia e pouco calor humano. Estamos todos tão perto, e ao mesmo tempo tão distantes.

A coluna de hoje é dedicada à mãe de minha amiga Solange, dona Josephina Antônio Gonçalves, mais conhecida como Jacira, que nos deixou nesta semana. Era uma rara leitora deste espaço, generosa a ponto de me ligar para comentar algum tema. À ela, desejo paz. À família, consolo.

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