Francamente: Democratizando a atenção
Junho 26, 2010 Nenhum comentário
Saí do velório – odeio velórios! – e entrei no meu carro. Distraído. Falecera a mãe de um amigo, já de idade avançada, mas que, desafortunadamente, foi vítima de um acidente de trânsito. Pensava em como a vida nos prega peças. Esperamos que os velhos morram de velhice, de doença, até de tristeza ou solidão, mas não numa fatalidade. Estas, parece que são reservadas aos mais jovens.
Bobabem, claro. Mas eram divagações com meus botões, apenas. Viajando em meus pensamentos, levei um susto quando alguém bateu na janela do carro, de vidro exageradamente escurecido, confesso, por uma película, dessas que, não sei por quê, chamam de filme. Nunca entendi nada de química, mesmo. Nem dos produtos que dela derivam. Um ignorante, eu sou.
Súbito, baixei o vidro. Sem nem visualizar direito a pessoa que chamava minha atenção com o toc-toc na janela. Em nenhum momento pensei em assalto ou algo parecido. Meu futuro inter-locutor era um jovem, de boné, camiseta e bermuda, alto, sobre sua bicicleta. Trazia nas mãos uma sacola de supermercado, com alguns produtos de comer, pelo que pude ver. “Parece que já te conheço de algum lugar”, ele me disse.
“Pode ser”, tentei encurtar o papo, um tanto impaciente. Achei que ele me pediria dinheiro por ter “guardado” o carro. Não era isso. Queria dinheiro, sim, mas não tentou receber por um serviço não prestado. Só contou que havia juntado algum dinheiro, mostrou-me uma moeda de 25 centavos e pediu uma contribuição para comprar feijão. Pretendia completar a compra que já iniciara, mas a grana acabou.
Fui sincero. Disse-lhe que não tinha um tostão sequer. “Você tem mais que eu”, brinquei, apontando a moeda em sua mão. “Então fica com ela. É pela sua atenção”, ele respondeu. Surpreso, despejei o que de pronto veio à minha mente. “Isso não se compra”. O rosto do garoto se iluminou. “É verdade! Gostei de você!”. E foi embora com sua bicicleta, falando alto: “Esse cara é legal!”.
Lembrei-me de uma reportagem que assisti há algumas semanas, com garis reclamando que a maior dureza que enfrentam em seu duríssimo dia a dia é a falta de atenção que lhes dispensamos. “Passam pela gente como se não estivéssemos ali”, queixou-se um deles. Ninguém lhes dá um bom dia ou um boa noite. São como as árvores ou postes, apenas parte da paisagem. Eu não dei dinheiro para aquele jovem, nem me preocupei em ser simpático com ele. Mas ter aberto o vidro e trocado com ele duas ou três fases lhe pareceu uma distinção especial. Prometi-me que iria procurar reparar mais nas pessoas. A atenção deve ser democratizada. Como são as fatalidades.
Na coluna da semana passada, deixei passar um “tijelona”, aumentativo de tigela, com “j”, pelo que peço desculpas.
Por Marcos Paulino
