Aos 28 anos de carreira, Capital Inicial ousa em novo disco
Junho 26, 2010 Nenhum comentário
A poucos dias de gravar “Das Kapital”, 12º disco de estúdio do Capital Inicial, o vocalista Dinho Ouro Preto caiu do palco durante um show, bateu a cabeça e acabou internado. Além do trauma craniano em si, deparou-se com complicações, como uma infecção e uma resistente pedra no rim. Longe dos companheiros Fê Lemos (bateria), Flávio Lemos (baixo) e Yves Passarell (guitarra), teve que se contentar em acompanhar as gravações via internet. Isso, porém, não impediu que a banda brasiliense, do alto de seus respeitáveis 28 anos de carreira, lançasse um bom disco de inéditas, permitindo-se ousar ao apostar numa interessante variação sonora em suas 11 faixas.
“Das Kapital” é um disco de rock curto e grosso. Destoa enormemente do rock que apresenta a nova geração. Isso se deve também à troca de produtor, entrando David Corcos no lugar de Marcelo Sussekind. Mas mais ainda à vontade dos veteranos músicos de se reinventar. Sobre esse trabalho, o batera Fê deu a seguinte entrevista ao PLUG.
Hoje o público do Capital Inicial reúne quem acompanha a banda desde os anos 80 e os filhos dessas pessoas. Vocês pensam nisso quando vão compor para um trabalho novo, como este “Das Kapital”?
Não, é natural. A gente não planeja compor pra determinada faixa etária ou pra um grupo em particular. As músicas refletem o estado de espírito de cada compositor, as influências que ele está tendo naquele momento. Houve uma época em que tentamos soar diferentes, no final dos anos 80, com as batidas eletrônicas, e não fomos bem sucedidos. Aprendemos a duras penas a trabalhar com o que nos dá prazer. No começo dos anos 90, houve uma onda dos bateristas tocarem com dois bumbos. Estudei durante um ano pra tocar com dois pedais, e o som virou uma maça-roca. Aquele não era eu. Tenho que tocar da minha maneira da melhor forma possível. Enfim, quando a gente compõe, procura ser fiel ao nosso som. Não dá para querer tocar como uma banda nova, nem ficar congelado no tempo.
Mas vocês pensam no fato de que há várias gerações ouvindo a banda? Isso pesa?
Sempre pensamos nisso. Quando o Dinho voltou para a banda, em 1998, vimos uma galera nova no show. Eram jovens que não conheciam o Capital da década de 80. Aí veio o “Acústico”, pra mostrar pra essa geração um pouco da nossa história. O disco teve um alcance incrível. E desde então temos renovado o nosso público, porque sempre procuramos renovar nosso material, e não ficar gravando covers. Agora, o fato de sermos relevantes para os adolescentes nos enche de orgulho, porque eles são muito exigentes.
“Das Kapital” traz uma boa variedade sonora. É essa busca por novos sons que faz o Capital ainda ter fôlego, ao contrário de tantas outras bandas que estouraram nos anos 80?
Acho que sim. Há aí dois ingredientes. Um é a qualidade musical, que vem com a gente desde moleques. Outro é que sempre procuramos fazer nossa música, nunca fomos uma banda de covers. E sempre tentando fazer algo que nos surpreendesse, sem repetir fórmulas. Talvez transpa-reça nas músicas a busca por manter essa chama da originalidade acesa e faça com que soem especiais. Neste disco, procuramos a todo custo evitar músicas das quais não estivéssemos seguros. Aceitamos a sugestão do produtor, de fechar em 11 músicas, e não 14, como era o padrão.
O disco tem músicas curtas, todas com cerca de três minutos. A ideia era essa ou foi por acaso?
A ideia era essa. Vivemos uma época que de certa forma é um retorno aos anos 50 e 60, quando as bandas soltavam três ou quatro singles por ano. Depois é que os reuniam num LP. Agora também se trabalha com músicas individuais. Não há mais aquele hábito de se ouvir um disco inteiro. Isso acabou depois do MP3. Então pensamos em fazer um disco mais curto, com 11 músicas campeãs.
Nos anos 80, havia uma grande variação na sonoridade das bandas de rock brasileiras. Nos primeiros acordes, já era possível saber quem estava tocando, diferentemente das bandas de hoje. O Capital aproveita essa experiência de tantos anos para se diferenciar?
A geração de 80 viveu um momento especial, tanto na vida do Brasil quanto da cultura pop. No final dos anos 70, houve o punk rock, a reinvenção do rock. Nos anos 80, veio tudo isso e o fim da ditadura, a luta dos nossos pais. As bandas que possuíam uma verve política tinham o que falar. E as influências musicais nessa época eram fartas. O Barão era uma pegada mais Rolling Stones, o rock de Brasília era mais influenciado pela new wave, o rock punk paulista, o rock gaúcho com seu sotaque. Talvez hoje a sonoridade que influencia as bandas mais novas seja mais parecida e isso faça com que soem parecidas. Mas acho que isso não é problema algum. Esta-mos vendo o nascimento de uma nova geração e os bons artistas vão sobreviver e desenvolver seus próprios estilos.
O Dinho teve vários problemas de saúde em virtude do acidente que sofreu durante um show. Isso complicou muito a gravação do disco?
Esse foi o disco para o qual a gente mais ensaiou. Vínhamos de três meses de ensaio diários, seis horas por dia. Quando o Dinho sofreu o acidente, faltavam quatro dias para entrarmos no estúdio para gravar. Resolvemos gravar a base, já tendo uma ideia de como queríamos que o disco soasse. Um dos músicos fez a voz guia e o Dinho foi acompanhando do hospital, pelo Skype. Claro que faltou a empol-gação dele no estúdio, mas até por causa disso demos o nosso máximo. Também achávamos que nos ver trabalhando serviria de estímulo pra ele. Seria muito pior esperar por ele, porque teríamos perdido todo o trabalho de ensaio e ele poderia ficar deprimido. Quando o Dinho saiu, foi só encontrar a melhor forma pra cantar.
Ele até ousou sair um tanto de seu estilo em algumas músicas…
Verdade. Ao cantar, ele traz um pouco da angústia e do sofrimento que passou. Ele teve tempo pra refletir sobre as letras também e algumas delas trazem as marcas desse trauma.
Vocês reformularam todo o visual dos elementos cenográficos da nova turnê. Quais são as novidades?
Resolvemos fazer um show mais apoiado em tecnologia, com luzes de última geração. Nosso cenário era mais baseado em elementos dos anos 70, painéis, panos, bonecos infláveis, rampas, passarelas, estruturas metálicas pesadas. Diminuímos o hardware e incrementamos o software. Se desligamos as luzes, você não vê nada no palco. A luz cria o cenário. Outra mudança é que resolvemos abrir a turnê nas capitais, pra onde antigamente íamos no final. O objetivo foi usar o efeito multiplicador dos shows nas capitais, que é inigualável.
O interior de São Paulo está na rota da nova turnê?
Com certeza. O interior de São Paulo é nossa melhor praça, é onde fazemos 60% dos shows. E o show que montamos nas capitais vai para o interior. Vamos levar o circo todo.
Por Marcos Paulino
