Mukiranas: 20 anos de folia
Maio 2, 2010 Nenhum comentário![]()
Tema deste ano do Bloco Mukiranas
Houve um tempo – e os mais novos podem acreditar nisso – em que muita gente brigava com os pais para não viajar para a praia durante o Carnaval. Afinal, a maior diversão estava mesmo em Limeira. Nosso Clube, Gran São João e outros clubes promoviam bailes e matinês concorridíssimos, cada um deles reunindo milhares de pessoas. Era uma festa realmente imperdível, em que várias idades se misturavam ao som de marchinhas e sambas-enredo, os ritmos preferidos durante a folia naquela época.
Foi nesse ambiente que, em 1990, surgiu o Mukiranas do Brás, bloco carnavalesco que marcou história na cidade, chegando a ter perto de 300 integrantes em seus dias de glória. A cada ano, seus foliões invadiam os salões dos clubes, principalmente o Nosso Clube, com camisetas temáticas, músicas próprias, coreografias e, acima de tudo, muita alegria e criatividade. Quando os fogos de artifício avisavam que o Mukiranas estava chegando, era a hora de a banda parar de tocar e esperar o show particular do bloco, que atraía todos os olhares. E, com eles, muitas risadas.
Neste ano, um pré-carnaval que acontece hoje, na boate La Chouette, no Nosso Clube, a partir das 22 horas, vai comemorar os 20 anos do Mukiranas do Brás, um bloco que, surpreendentemente, consegue ser organizado sem que ninguém se preocupe com isso. As coisas acontecem naturalmente. Basta dizer que nunca teve um presidente ou qualquer cargo diretivo.
Claro que sempre há aqueles que arregaçam as mangas para fazer a coisa andar, mas sem esperar qualquer recompensa. Até porque o Mukiranas nunca teve fins lucrativos. Pelo contrário. Todos sempre pagam pelas camisetas e, se sobra algum dinheiro, é via de regra destinado a entidades assistenciais.
ABAIXO AS BRIGAS
O nome do bloco, que sempre desperta curiosidade, não tem qualquer significado. Assim como as frases que ilustram as camisetas, junto dos desenhos que mudam a cada ano. Uma delas – “Quarqué coisa é mesma coisa, o que importa é o que interessa” – inclusive virou frase de rodapé de agenda, lembra, orgulhoso, o empresário Warley Grotta Júnior, de 39 anos, um dos fundadores do bloco.
“Conseguimos mudar o rumo do Carnaval”, diz ele, lembrando que as brigas eram comuns nos bailes carnavalescos quando o Mukiranas surgiu. “Em vez de medir forças com os blocos mais antigos, conseguimos implantar o show, inventando entradas apoteóticas, apresentando o bloco com todos os componentes juntos, soltando rojão, cantando sempre músicas muito engraçadas. Conquistamos a todos com a diversão. E com isso as brigas se foram, ou pelo menos diminuíram muito”.
BAGUNÇA ORGANIZADA
Nos primeiros anos, além da camiseta, cada integrante recebia um kit com os adereços, um porta-latas e um pequeno manual de comportamento, que trazia informações sobre as atividades daquele ano e enfatizava que o Carnaval deveria ser aproveitado com muita paz.
“O que fizemos foi criar algo novo, mesmo sem planejamento algum, que foi juntar pessoas irreve-rentes e de bem”, analisa Warley, um dos 35 a comprar a primeira camiseta do bloco. Nos outros anos, os irmãos mais novos dos integrantes originais também foram aderindo ao bloco e assim as novas gerações garantiram a sua sobrevivência.
“Mais velho dos mais novos”, como ele próprio se define, o vendedor Alexandre Guidi, o Xandão, de 35 anos, foi um dos que entraram na segunda edição. Ele lembra que, como quatro noites e duas matinês eram pouco para o bloco, foi criada a Sexta-feira Bagaceira, evento que reunia os integrantes numa festa sempre na sexta anterior ao Carnaval. “Acho que essa era a melhor noite de todas”, recorda-se.
Porém, aos poucos, a folia nos clubes foi deixando de ser atrativa para grande parte dos limeirenses. Não há uma razão clara para isso, o que existem são suposições. Entre elas, a invasão dos ritmos baianos e do funk carioca, a proliferação das chácaras de recreio e as facilidades para se viajar hoje em dia.
Outro fundador do bloco, o pneumologista Danilo Gullo Ferreira, o Kilinho, de 42 anos, lembra que “o Carnaval nos clubes se mantinha como uma grande atração e o pessoal mais jovem não podia nem ouvir os pais falarem em viajar”.
“Era uma festa em que quase tudo era permitido, então era a chance de muitos conquistarem aquela garota que estavam de olho e das meninas ficarem com quem bem entendessem sem serem rotuladas”, analisa. “Mas, com a mudança de alguns paradigmas em relação ao sexo e à sexualidade, o Carnaval se tornou desnecessário. Sendo assim, os jovens cada vez mais veem o Carnaval como um feriado prolongado, uma época boa para viajar para a praia, e se mandam da cidade, deixando nossa folia mais pobre”.
FÓRMULAS ALTERNATIVAS
Alguns clubes inclusive vêm apostando em fórmulas alternativas, como o Carnaval junto às piscinas, na tentativa de atrair novamente o público. Entretanto, a despeito disso, o Mukiranas continua vivo, renovando suas camisetas a cada ano. Neste, foram vendidas cerca de 60. Número bem menor que aquele da época áurea, mas ainda assim significativo, se for levado em conta que muitos blocos surgiram na esteira do sucesso do Mukiranas e não conseguiram sobreviver.
O que mantém o bloco em pé, afirmam com unanimidade seus integrantes, é a amizade que os une. “O Mukiranas do Brás não é apenas um bloco de Carnaval, é uma reunião de amigos”, opina o professor universitário Elisson Andrade, de 32 anos. “O Carnaval perde mais força a cada ano, mas o bloco resiste pelo simples fato de que os amigos das antigas continuam juntos. E mais, com o mesmo espírito folião de sempre, não só no Carnaval. Já é um estilo de vida”.
“Ainda bem que o Mukiranas não é apenas um simples bloco de Carnaval e sim a união de amigos, que sempre se reúnem para celebrar a felicidade, regada a muita cerveja e música”, reforça o contador Fábio Pinto, o Suzão, de 34 anos.
A verdade é que, tenha Carnaval nos clubes ou não, os Mukiranas simplesmente não conseguem imaginar o fim do bloco. “Não estou com pressa de ver o fim do bloco, nem muito menos acho que devamos parar. Sei que mais gente pensa assim, então vai que vai…”, avisa Warley.
