Francamente: Meu time não vale minha vida
Janeiro 3, 2010 Nenhum comentárioQuando comemorou o segundo gol de Robert no clássico, que decretaria a vitória do Palmeiras sobre o São Paulo, Alex não podia imaginar que seria a última bola na rede que veria na sua vida. Fanático por futebol, como sua família contaria depois, ele fazia parte da torcida Mancha Verde e viajara de Limeira para assistir àquele jogo. Junto com ele, foram também centenas de outros torcedores, de várias cidades do interior.
Todos estavam preparados para a briga. Tanto que, além dos ingressos, levavam paus e barras de ferro nos ônibus. Afinal, nas partidas de times grandes no Brasil, já virou tradição ter pancadaria antes, durante ou depois, seja qual for o resultado. No caso de Alex, tudo parecia tranquilo quando a excursão parou num posto da Rodovia dos Bandeirantes, em Jundiaí, já na volta a Limeira, todos comemorando a bela vitória do time do coração.
O encontro com os são-paulinos, premeditado ou não, porém, transformou o estacionamento do posto numa praça de guerra. Entre os muitos feridos por socos, pontapés, pauladas e bombas, sobraria para Alex o pior, um tiro fatal. Não o conheci, não sei de sua índole, sei apenas que nada justifica que se perca uma vida por um motivo tão banal quanto um jogo de futebol.
Aliás, adoro futebol. Sem talento para jogar, conformo-me em ver os craques e aqueles nem tanto nos gramados da vida. Se é o meu Corinthians que está em campo, então, sofro que nem criança. Mas aceito ser sacaneado quando o Timão está mal e gosto de brincar com os amigos depois de mais um show do Ronal-do. Se a discussão começa a ficar mais exaltada, contudo, saio logo de perto. Não curto. Meu time do coração não está acima de nenhuma amizade, muito menos de minha integridade física. Da minha vida, então, nem se fala.
É por episódios como deste Palmeiras x São Paulo que ensaio, ensaio e não tomo coragem de levar meu filho para debutar num jogo do Corinthians. Já vi a tabela deste Campeonato Paulista umas cem vezes, à procura de uma partida em que acredite ser viável levá-lo. Clássicos? Nem pensar. Um jogo contra a Ponte Preta? Arriscado demais. Em cidades menores, talvez. Mas aí penso nos flanelinhas, na falta de banheiros decentes, nos lanches suspeitíssimos e logo desanimo.
Queria poder combinar com meu irmão e meus sobrinhos são-paulinos de irmos, juntos, num São Paulo x Corinthians no Morumbi. Sentaríamos lado a lado, cada um com a camisa do seu ti-me, vibrando, sofrendo, rindo, chorando. Ao final do jogo, uma parte da família estaria feliz pelo resultado, e a outra também sairia satisfeita, por ter desfrutado de uma tarde divertida. Entretanto, no país da Copa-14, não dá. E do jeito que as coisas vão, difícil acreditar que um dia dará.
