Francamente: Entre a chuva e o computador
Outubro 1, 2009 Nenhum comentárioA paisagem se apressava pelas janelas do meu carro, sem que eu desse muita a atenção a ela. Era manhã, um dia qualquer. Dia de trabalho, e lá ia eu cumprindo minha rotina. Meu computador, por certo, esperava-me ansioso. Afinal, é com ele que divido a maior parte das horas do meu dia.
Minha mente, concreta, pensava nos afazeres, tantos! A agenda os traria todos, um a um, para que nenhum ficasse para trás. E, para aqueles dos quais me lembrava sem a ajuda dela, ia dividindo mentalmente meu tempo, tão pouco! O rádio, claro, ligado. Sempre. Rádio para mim é equipamento tão importante quanto motor, volante ou rodas.
Os alto-falantes despejavam canções desconexas, ecléticas; vinham de uma emissora qualquer, dessas menos comerciais, que não se preocupam em tocar apenas os sucessos (tão efêmeros!) do momento. Notas entravam e saíam pelos meus ouvidos, dispersos, com a mesma facilidade. A música também usava a sua cara de paisagem.
Mas foi sobre um viaduto, de onde via a cidade ao fundo e abaixo, que alguns acordes deram uma guinada em meus pensamentos. Melhor, sentimentos. Era uma canção antiga, em inglês. Não sei o nome, menos ainda quem a interpretava naquela manhã. Só sei que me despertou emoções como apenas algumas músicas são capazes de. Não cabe em rótulos: romântica, brega, antiga. É mais profundo que isso. Mais abstrato.
É daquelas músicas que nos dão saudade até do que não vivemos, se é que você me entende. Fez-me voltar a um tempo em que as emoções fervilhavam na cabeça, e no coração, tanto a ser vivido que dava até falta de ar.
Época de tantos planos, de tanto o que será que vai ser, de vontade de viver tudo ao mesmo tempo agora. Tanto a experimentar, mesmo sabendo que não experimentaria tanto. Pois é nesse ponto que voltei. O que não experimentei? Ficou para trás algo que valeria realmente a pena? Ou não? Sabe aquele poema que uns atribuem a Borges, outros não, tanto faz? Se vivesse de novo tomaria mais sorvete, me preocuparia menos, trabalharia menos, ficaria mais tempo na chuva, coisas por aí.
Mas estava indo para o trabalho. Aquele aperto no peito não me fez mudar o caminho. Não fui tomar sorvete nem pensei em sair do carro e me molhar na chuva que o céu despejava. Não abandonei a ideia, porém. Mas o computador me chamava, então.
