Francamente: Sobre morte e relatividade
Junho 5, 2009 Nenhum comentárioTudo na vida é relativo, já pensava o pai de todos os físicos. Divaguei sobre isso numa conversa com minha filha, dias atrás. Nem me lembro qual a origem daquele papo, somente que ela afirmava, categoricamente, que 10 minutos eram pouco tempo. Depende, argumentei. “Se seu time está perdendo e precisa de um gol para empatar, 10 minutos realmente passam depressa. Mas, se está ganhando de 1 a 0, com a mão no título, 10 minutos parecem uma eternidade”.
E fomos nós dois trocando ideias sobre a relatividade dos 10 minutos. O assunto voltou a minha cabeça ao ver na TV o estado que ficou a pequena Trizidela do Vale, cidade maranhense literalmente sub-mersa pela enchente do Rio Mearim. Quase nada sobrou em pé. Essa foi uma de tantas cidades nordestinas devastadas pela força das incessantes chuvas. Conforme vai baixando a água, o povo tenta voltar para casa, mas só encontra destruição. Foram-se mobília e paredes, ficou a lama. E me lembrei que, há alguns meses, o país inteiro se mobilizou para acudir os catarinenses também vítimas de inundações.
Por que será que agora não se vê movimentação semelhante em prol dos nordestinos? Será que vê-los sofrendo nos é mais familiar que aos nossos vizinhos do sul? Será que a aparente resignação com que enfrentam a desgraça e a fé a toda prova lhes emprestam um verniz que afasta a nossa compaixão? Ou é porque, povo de dor estereotipada, o nordestino sofre relativamente menos que os outros brasileiros? “Com fé em Deus, a gente vai trabalhar para recuperar tudo isso. Quem sabe com Deus estando na frente, abre uma lareira, e a gente vai passando”, conformou-se um pescador de Trizidela, diante da indeferença alheia.
Desgraça pouca é bobagem, diz o ditado, e penso na queda do avião da Air France com 228 pessoas. Diariamente, os meios de comunicação noticiam atentados e massacres nos mais diversos pontos do mundo, com soma de dezenas de mortos. A gente lê ou assiste sem muito interesse, acostumados que estamos. Da mesma forma que recebemos informações sobre uma chacina na favela. Nesses casos, são todos bandidos ou loucos, classificamos. Portanto, relativamente, suas famílias sofrerão menos que aquelas cujos parentes foram vítimas de um acidente aéreo. Se não pensamos assim, está no nosso inconsciente. Por isso os enfoques para uns casos e outros são tão desproporcionais. Inocentes morrem assassinados, alagados ou acidentados. Mas, para quem fica, a morte é absoluta, nunca relativa.
