Para pesquisador, pênalti só é loteria para quem não treina

Dezembro 4, 2008 Nenhum comentário

Para pesquisador, pênalti só é loteria para quem não treina

Um dos momentos mais tensos do futebol é, com certeza, a cobrança de pênaltis, principalmente as que decidem títulos. Para muitos, errar um pênalti é imperdoável. Mas o que leva um atleta a errar uma penalidade? Cansaço? Nervosismo? Um estudo sobre os efeitos da fadiga e do estresse nas cobranças das penalidades máximas do futebol, os pênaltis, realizados no Laboratório de Fisiologia do Comportamento, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, apontam que a falta de treino seria um dos motivos para os erros. O Laboratório, que é ligado ao NEC – Programa de Neurociâncias e Comportamento do Instituto de Psicologia da USP, é coordenado pelo professor Ronald Ranvaud e a pesquisa na área de “Técnicas Psicofísicas aplicadas ao Esporte” tem o apoio da doutoranda Martina Navarro.

A pesquisa consistiu numa simulação feita em computadores em que os “batedores” eram os estudantes de graduação da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP, dos cursos de Educação Física e Esporte. Na simulação, três círculos representavam o goleiro, a bola e o batedor alinhados como na vida real. O círculo que representava o batedor ia em direção à bola e, no instante em que um se sobrepusesse ao outro, cabia ao atacante a tarefa de escolher o lado em que a bola iria (direito ou esquerdo, não era permitido chutar no meio do gol).

O goleiro se movimentava aleatoriamente para a direita ou para a esquerda e o instante em que ele “saltava” variava entre 51 milisegundos (ms) a 459ms antes que batedor e bola se sobrepunham. Eram ao todo nove tempos diferentes crescendo em progressão aritmética, ou seja, 51ms, 102ms,153ms, até os 459ms. A décima possibilidade diferente era o goleiro não se mexer, esse modo foi inserido para que o batedor não atrasasse a cobrança esperando o goleiro.

Os testes feitos inicialmente, com os estudantes descansados e isolados, mostraram que com 459ms de diferença entre o salto do goleiro e o momento do chute, o índice de acerto chegava ao patamar dos 100%.

Foi então realizada uma competição entre os alunos dos dois cursos, com a presença de torcida. “Nessas condições o desempenho dos voluntários na situação em que em laboratório era 100%, saturou em 80%, ou seja, em 20% das vezes, mesmo o tempo sendo suficiente para a cobrança (459ms), ele errava do mesmo jeito”, descreve Martina. O índice nas simulações se aproxima muito do real uma vez que cerca de ¼ dos pênaltis são perdidos.

No teste da fadiga, em que anilhas eram colocadas nas alavancas para dificultar o movimento, simulando o cansaço, o índice de erro foi praticamente o mesmo.

Treino X Loteria

Após uma série de treinos, com os estudantes já com bastante prática na simulação, mesmo em condições adversas de estresse ou cansaço o índice voltou a se aproximar dos 100%, o que, para o professor Ranvaud, mostra que o treino é necessário para a diminuição dos erros. “As pessoas têm esse preconceito que pênalti é loteria”, divergindo de boa parte dos comentaristas e atletas que consideram o êxito na cobrança uma questão de sorte.

Ele ainda diz que quanto mais o atleta acredita que pênalti é loteria e não treina, maiores são as chances dele errar: Ranvaud acredita que a pressão aumenta sobre o jogador pois, em tese, ele é responsável por algo que não tem controle total e acrescenta: “quanto menos você treina, mais de fato é uma loteria. Quanto mais você se convence que é uma loteria, mais você está estressado porque não depende de você o êxito.”

Ainda é possível diminuir também os efeitos da fadiga na cobrança de penalidades, diz Ranvaud. Ele defende os treinos de cobranças com os atletas já cansados: “Pois ainda é possível, mesmo fadigado encontrar uma estratégia para acertar o gol”.

Mas e o mérito do goleiro? Para o pesquisador a situação ideal seria que o atleta treinando nessas condições adversas, conseguisse “colocar a bola naquele cantinho em que o goleiro não tem como chegar”.

Fadiga X Estresse

Para o pesquisador, a torcida consegue compreender muito melhor um erro causado pela fadiga do que pelo estresse. Seria uma questão muito mais mecânica, uma situação pela qual todas as pessoas já passaram e sentiram de alguma forma seus efeitos. Por outro lado, o atleta estar estressado, desequilibrado psicologicamente “é muito mais difícil de perdoar”. “Olha quanto que o cara ganha!”, brinca o professor.

Sobre pressão e responsabilidade Ranvaud conta de seu encontro com Marcelo Lippi, treinador da Itália campeã do mundo em 2006, nos pênaltis. O professor descobriu que Lippi não havia feito nada de diferente para a Itália vencer o trauma de ter perdido mais de uma decisão em disputa de penalidades, a mais famosa na Copa de 1994. Para o técnico italiano “é impossível treinar pênalti.”

Ele faz a mesma pergunta que fez para o técnico diante da resposta: “o que é mais difícil acertar o gol ou pousar um caça num porta aviões com o mar agitado?”. Ele mesmo responde: “Pousar o caça é muito mais complicado, porém, o piloto que vai pousar o caça treina, e treina muito.”

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