Presidente Lula sanciona reforma ortográfica
Setembro 30, 2008 Nenhum comentário![]()
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou nesta segunda-feira (29) o decreto que estabelece a reforma ortográfica. As mudanças na escrita começam a valer a partir de 1º de janeiro de 2009. A solenidade ocorreu na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro. A reforma da ortografia pretende unificar o registro escrito nos oito países que falam português – Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, Brasil e Portugal.
De 2009 até 31 de dezembro de 2012, ou seja, durante quatro anos, o país terá um período de transição, no qual ficam valendo tanto a ortografia atual quanto as novas regras. Assim, concursos e vestibulares deverão aceitar as duas formas de escrita – a atual e a nova.
Nos livros escolares, a incorporação das mudanças será obrigatória a partir de 2010. Em 2009, podem circular livros tanto na atual quanto na nova ortografia.
O que muda na escrita
De acordo com especialistas, 0,45% das palavras brasileiras sofrerão alterações, ao passo que em Portugal haverá mudanças em 1,6% dos vocábulos. As regras que mudam são as seguintes:
Novas letras – há a incorporação do “k”, do “w” e do “y” ao alfabeto. O número de letras passa de 23 para 26.
Trema – deixa de existir. A grafia passa a ser: linguiça e frequente.
Acentos diferenciais – serão suprimidos acentos como o de “pára”, do verbo parar.
Acentos agudos de ditongos – somem os acentos de palavras como “idéia”, que vira “ideia”.
Acento circunflexo – somem os acentos de “vôo” ou de “crêem”.
Hífen – palavras começadas por “r” ou “s” não levarão mais hífen, como em anti-semita (ficará “antissemita”) ou em contra-regra (ficará contrarregra).
Pontos em aberto
O acordo não define todos os usos de hífens, por exemplo. Assim, palavras como pé-de-cabra, ainda não têm o rumo certo e dependem da elaboração de um vocabulário pela Academia Brasileira de Letras e pelos órgãos dos outros sete países signatários.
História do acordo
O acordo ortográfico da língua portuguesa foi assinado em Lisboa em 1990 e deveria ter entrado em vigor em 1994, o que não se concretizou. Em 1998, foi assinado em Cabo Verde um protocolo que modificava a data de vigência, que foi ratificado em 2002.
Sem que as mudanças se aplicassem, em 2004 foi assinado um novo protocolo modificativo, que previa a adesão do Timor Leste, independente desde 2002. Este novo protocolo previa que as mudanças na ortografia entrariam em vigor a partir da assinatura de três países.
O acordo ortográfico já foi ratificado por Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Portugal, e, portanto, pode entrar em vigor. O processo de implementação em cada país pode variar.
Em Portugal, o acordo foi aprovado em maio e a nova ortografia deverá ser obrigatória dentro de seis anos.
Acadêmicos divergem sobre reforma ortográfica
Imortais da Academia Brasileira de Letras (ABL) divergiram sobre a reforma ortográfica. O jornalista e professor Arnaldo Niskier, por exemplo, afirma que as mudanças na grafia podem ser um pretexto para o país escrever melhor. Já Carlos Heitor Cony classificou o acordo como “inútil e improdutivo”.
“A língua é feita pelo povo. Não adianta o governo querer discipliná-la. Acho absolutamente inútil e improdutivo. Não é a primeira vez que vai se fazer esse acordo. A tendência é daqui a algum tempo [a escrita] mudar outra vez. Portugal jamais vai se submeter a certas coisas”, pontuou Cony.
A opinião de Cony é, em partes, compartilhada pelo ex-presidente José Sarney, “A língua é dinâmica. Talvez esse não seja o último acordo. A Academia, primeiro, vai refazer o vocabulário e teremos um período de adaptação”.
Niskier tentou minimizar a alteração na língua, informando que as mudanças atingem menos de 1% dos vocábulos empregados no Brasil. “Quem sabe é um bom pretexto para escrevermos certo? Será feita uma campanha e pode ser que com ela, as pessoas aprendam a escrever melhor”, disse.
Para Marcos Vilaça, ex-presidente da ABL, a oportunidade de unificar a língua é interessante para o Brasil. “O português tem dois dicionários: o da nossa academia e o da academia de Lisboa. Agora, isso vai ser unificado. Todos os países vão escrever da mesma forma. Só posso ver isso com simpatia”, diz.
Para ele, o próximo ano servirá para a “reciclagem” das pessoas sobre o uso da língua. “Só simplificar as regras sobre hífens e a retirada dos tremas, torna o acordo uma boa coisa”, aponta.
Já o acadêmico Eduardo Portella não se mostrou favorável às novas normas.
“Sou muito pela liberdade, por deixar a língua correr em paz. Se tiver que criar normas para algo fundamental, muito bem. Mas acho desnecessário criar normas para o supérfluo”, pondera.
