CD e DVD Multishow Ao Vivo mostram a renovação dos fãs do Capital Inicial

Julho 25, 2008 Nenhum comentário

CD e DVD Multishow Ao Vivo mostram a renovação dos fãs do Capital Inicial

Poucas bandas de rock conseguiram conduzir tão bem a renovação de seu público quanto o Capital Inicial. Verdade que houve algumas turbulências pelo caminho, iniciado em Brasília, em 1982. Entre elas, a saída do tecladista Bozo Barretti, em 92, e do vocalista Dinho Ouro Preto, no ano seguinte. Mas, mesmo na época de vacas magras do rock brasileiro, nos anos 90, os candangos se mantiveram em atividade. Até que, em 98, aproveitando o sucesso da coletânea “O Melhor do Capital Inicial”, os velhos integrantes se reuniram para uma série de shows.
O sucesso só aumentou com o lançamento, em 2000, do “Acústico MTV”, que agradou aos antigos fãs do Capital e ainda arrebanhou um novo público. Dois anos depois, já com Yves Passarel, ex-Viper, na guitarra, é lançado “Rosas e Vinho Tinto”, que é muito bem aceito e recoloca a banda na rota dos discos de inéditas. Em 2004, veio “Gigante”. Numa recaída, em 2005, Dinho, Yves e os irmãos Flávio (baixo) e Fê Lemos (bateria) regravam músicas do Aborto Elétrico, banda que deu origem à Legião Urbana e ao próprio Capital. Mas as novas músicas voltaram com “Eu Nunca Disse Adeus”, de 2007, ano em que os brasilienses ganharam o prêmio de Melhor Grupo do Multishow.
O reconhecimento deu o ânimo necessário para que a banda colocasse em prática o antigo projeto de gravar, para um CD e um DVD, um show em sua cidade natal. Surgiu assim o “Multishow Ao Vivo”, que marca o rejuvenescimento dos fãs do Capital Inicial. Sobre esse trabalho, Fê Lemos conversou com exclusividade com o PLUG.

Como foi a concepção do novo disco?
A gente já vinha pensando em gravar um show em CD e DVD desde o “Gigante”, mas achávamos que seria precipitado fazer tão próximo do disco acústico, que já tinha música ao vivo e girava em torno dos nossos sucessos. Era preciso fazer mais discos de estúdio, e foi o que aconteceu, com “Rosas e Vinho Tinto”, “Gigante”, “Aborto Elétrico”, uma releitura do material dessa banda seminal de Brasília, e “Eu Nunca Disse Adeus”. Aí sentimos que tinha chegado o momento de gravar o show. Nas quatro turnês antes deste ao vivo, fomos aprimorando nossa apresentação, incluindo elementos de cenário, como bonecos infláveis cada vez maiores e lança-chamas. Com essa progressão de tamanho do show, pintou um arrependimento de não ter filmado as turnês anteriores. Então queríamos gravar o novo show, ao mesmo tempo em que tínhamos vontade de produzir material inédito, até porque foi isso que permitiu essa longevidade, que colocou a banda frente a uma nova geração de fãs. Um projeto de um DVD ao vivo necessariamente te afasta por um tempo da criação de novas canções. Então fomos equilibrando esses desejos, mas sentimos que a hora tinha chegado.

Pra atrair esse público multimídia de hoje, cheio de informação, é fundamental investir em algo mais além do som?
Sim e não. Vejo shows em lugares menores, em que meu interesse são a música e o artista. O show de música tem que se sustentar pela música, não é pirotecnia que vai fazer com que o público se envolva no espetáculo. Por outro lado, a partir do disco acústico, passamos a tocar em grandes praças de shows, festas de peão, eventos ao ar livre, para 20 mil, 30 mil pessoas. São shows que, em algumas cidades, são a única oportunidade de o público ter contato com o entretenimento numa escala maior. Então temos que levar um show visualmente maior, porque tocamos para os fãs, mas também para quem nunca ouviu um disco de rock. Assim, a gente se preocupa em chamar um cenógrafo pra fazer um cenário bacana, um iluminador pra fazer uma luz que o pessoal nunca viu.

Para o DVD, houve também uma preocupação com a produção de imagens, com 12 câmeras, tomadas aéreas…
O Rodrigo Carelli, que cuidou da produção de imagens, percebeu que tinha um show de dimensões únicas nas mãos. Então tratou de registrar isso de uma maneira que pudesse transparecer na tela a grandiosidade do show. A câmera no helicóptero se tornou imprescindível e foi difícil, porque ali era um espaço aéreo extremamente restrito. A produção foi condizente com o tamanho do espetáculo, da platéia. Tivemos uma felicidade muito grande de fazer um show gratuito na capital do Brasil, com estimativa de público em torno de um milhão de pessoas.

O público do Capital Inicial hoje é aquele dos anos 80, é o que descobriu a banda depois do acústico ou é um pouco de cada um?
Um pouco de cada um. Mas a nossa vitalidade se deve à conquista de um novo público. A geração que ouviu o Capital nos anos 80 casou, é adulta, tem seus 30 e tantos, 40 anos. Esse não é um público que sai toda noite pra ir a shows, quem sai é adolescente. É a juventude que mantém vivo o interesse pela música com paixão, os adultos curtem de uma maneira diferente. É muito comum nos nossos shows encontrarmos pais e filhos juntos. Conseguimos fazer uma transição de público que foi fundamental pra nossa sobrevivência. O DVD vem numa época em que esse fenômeno ficou muito claro, tocamos para uma platéia imensa, heterogênea, com pessoas que moram nas cidades satélites de Brasília, de menor poder aquisitivo. É um público que gosta de rock, mas não um público roqueiro, que gosta também de Ivete Sangalo, que vai a micaretas, que gosta de música brasileira. Era um sonho que tínhamos quando começamos, há 25 anos, de tocar rock popular brasileiro. O rock era música de gueto. Quando eu dizia, na escola, que curtia rock, muita gente torcia o nariz. Era coisa de alguns iniciados. Mas, depois dos anos 80, e agora, com a nova geração de bandas, o rock se transformou numa música popular brasileira.

Vocês começaram tocando em Brasília para os imigrantes que chegavam à cidade para trabalhar. Hoje vocês já tocam para um público nascido em Brasília. O que mudou de lá pra cá?
Quando começamos a tocar, em 80, com o Aborto Elétrico, depois o Capital, a Plebe Rude, tocávamos para nossos amigos. Esse público cresceu um pouco quando começamos a tocar na Universidade de Brasília. Embora poucos conhecessem punk, os universitários gostavam da nossa atitude, de não estar acomodado. Nessa época, muito pouca gente tinha nascido em Brasília. Agora a maioria do público de Brasília é de pessoas nascidas lá e nos enxerga como uma referência, como aquele clichê de acreditar no seu sonho. Éramos apenas uns garotos sem nenhum dom especial pra música, que foram levados a tocar pelo punk rock. Fica essa idéia de que, se fizemos, outros podem fazer. E acho que, se for feita uma votação de qual a música oficial de Brasília, apesar do ecletismo que existe em todo o país, a escolhida será o rock.

O novo CD tem várias músicas recentes. Isso já é reflexo desse novo público que vocês conquistaram?
É complicado parar e depois regravar canções. Mesmo nesse projeto, de gravar um show com os maiores sucessos do Capital, incluímos músicas novas porque sabemos que temos uma platéia que quer ouvir novidades. E é interessante porque essa platéia está começando a descobrir o Capital dos anos 80. Ouvem como uma curiosidade, porque não conseguem se relacionar com as músicas dos primeiros discos como acontece com as atuais. Então é importante ter músicas novas para manter a ligação com o público que está ouvindo rock agora.

O disco tem também uma música inédita. Já é a semente de um novo trabalho?
Queremos fazer uma turnê até o final do ano que vem com este CD. Mas com certeza em 2009 estaremos com muitas músicas prontas e pensando em gravar um novo disco. Mas sem data de lançamento, muita coisa ainda vai mudar, temos uma renegociação com a gravadora. Precisamos saber o que eles querem porque, mal ou bem, hoje você consegue sobreviver sem uma gravadora e ela pode não querer ter o mesmo nível de investimento de antigamente. Por outro lado, as gravadoras estão começando a ganhar dinheiro com novas mídias, ring tones, downloads legais, ou o gerenciamento de carreiras artísticas. Então ainda tem muita água pra passar por baixo da ponte. Mas o importante é que ainda estamos compondo, tínhamos sete músicas inéditas para escolher para o CD novo, e até o ano que vem teremos bastante coisa.

 

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