Rodrigo Castanho: a outra face do Midas

Setembro 21, 2007 Nenhum comentário

Rodrigo Castanho: a outra face do Midas


Rodrigo Castanho é um nome bastante conhecido nos bastidores da música. Não é para menos. Produtor talentoso, já trabalhou com bandas como Charlie Brown Jr., Mamonas Assassinas, Rouge e LS Jack, e artistas como Morais Moreira e Sérgio Reis. É também, para muitos aspirantes a estrelas, uma espécie de Midas, o deus da mitologia grega que transformava em ouro tudo o que tocava. Afinal, está diretamente ligado ao sucesso de nomes como CPM 22, Tihuana e Planta & Raiz. Esse trabalho já rendeu a ele indicações ao Grammy Latino e o título de produtor do ano oferecido pela rádio 89 FM.
Mas o que tem empolgado Rodrigo nos últimos tempos é outra banda iniciante, que acaba de lançar seu primeiro CD com uma proposta bastante ousada: reunir versões instrumentais de temas alternativos do cinema. Seu entusiasmo se justifica pelo fato de o próprio Rodrigo ser um dos componentes do The Hitchcock Trio, onde toca guitarra, violão e bandolim. Para gravar o disco que leva o nome da banda, o produtor reuniu o baixista Adriano Paternostro e o baterista Kezo, companheiros de outras jornadas, e conseguiu uma espécie de apadrinhamento de outro nome consagrado da música nacional, Rick Bonadio.
O resultado é um álbum surpreendente, com 13 músicas que homenageiam filmes nacionais e importados, antigos ou mais recentes, entre eles “Expresso do Oriente”, “Vidas Secas”, “O Jardineiro Fiel”, “Zé Pequeno”, “Blade Runner” e “Laranja Mecânica”. Ao trio, na gravação, somou-se uma extensa lista de músicos convidados, que incorporaram diversos instrumentos, timbres e sons ao trabalho. É possível ouvir cinco das músicas em www.thehitchcocktrio.com.br.
Em entrevista ao PLUG, Rodrigo fala sobre como foi trocar de lado, deixando adormecer momentaneamente a face de produtor para trazer à tona a de músico.

Como surgiu a idéia de homenagear o cineasta Alfred Hitchcock no nome da banda?
É uma homenagem ao mestre, que é uma unanimidade na banda. Todos nós gostamos muito de cinema e os três são fãs do Hitchcock. Então a primeira homenagem que decidimos fazer foi a ele, um gênio. Iríamos homenagear vários filmes com as músicas, mas a homenagem maior tinha que ser para ele.

E como nasceu essa história de fazer um disco com temas do cinema?
Eu, o Adriano e o Kezo já éramos amigos, eles haviam tocado em vários discos que produzi. Conversando com eles, descobri que gostam tanto de cinema quanto eu. Disse a eles que tinha muita vontade de fazer um disco instrumental, mas algo diferente, com trilhas, que não fosse um lance de virtuose, porque não é minha praia. Então pensamos em fazer um disco de trilhas alternativas, homenageando alguns filmes. Essa idéia clareou tudo. As músicas vieram naturalmente e em uma semana estava tudo pronto.

O cinema, na verdade, foi o que deu origem à banda.
Sempre quis fazer um disco instrumental, mas não ficou claro na minha cabeça qual seria o molde. Como na minha carreira tenho feito discos de rock, pop ou reggae, queria fazer algo que não tivesse limites de estilos. Como viabilizar isso? Cada música de um jeito ficaria bagunçado. Quando pintou a história do cinema, pude juntar duas coisas que adoro.

Música instrumental no Brasil tem pouco espaço. Vocês pensam em ganhar dinheiro com esse disco ou é só uma realização pessoal?
Primeiro é uma realização pessoal, porque sei que o mercado de música instrumental hoje é tétrico. Os músicos que fazem instrumental são guerreiros, porque não têm apoio, não têm lugar para tocar e não têm divulgação. No meu caso, tive a sorte de ter o apoio do Rick Bonadio, que me cedeu o estúdio dele em São Paulo e me contratou pela Universal. Então meu caso foi à parte, mas é tão difícil fazer um disco de instrumental, que é de se pensar antes se vale a pena.

Você é um produtor consagrado, mas agora está experimentando um pouco do outro lado, do músico que tenta descolar um espaço numa área de pouca exposição. Como você está encarando isso?
É uma realização pessoal. Quando se trabalha com bandas, você fica muito limitado. Não gosto só de rock ou de reggae. Gosto de samba, de música baiana, de música africana, de tocar bandolim, coisas que não uso no dia-a-dia com as bandas. Mas toco em casa, faço minhas gravações, tenho meus amigos músicos. Então esse disco veio como uma válvula de escape para todas essas coisas que eu gostaria de tocar, de expressar. Como o disco não tem fronteira de estilos, pude tocar violão de náilon e outros instrumentos que não toco normalmente. Estar do outro lado está sendo para mim uma forma de mostrar um lado do meu trabalho que ninguém conhece.

Mas você é justamente conhecido por um trabalho de “Midas” junto a bandas de rock e reggae. Como espera que será a repercussão desse disco que foge tanto desse estereótipo?
A surpresa que está causando nas pessoas é ótima. As pessoas me dizem que achavam que eu tinha certa limitação com o rock. Só estou tendo feedback positivo de tudo isso. Mas nem de longe imagino que vou ter a mesma exposição dessas bandas com as quais trabalho. Não tenho essa pretensão. Só quero mostrar que gosto de outras coisas.

Você acha que o Hitchcock Trio pode dar algum subsídio novo para levar para essas bandas?
Acho que sim.

Como você está vendo o cenário do rock nacional, com as bandas que fazem o chamado emocore se sobressaindo?
Esses rótulos, para mim, não significam nada. Emocore não é tão diferente de rock.

Mas você não vê certa mesmice no som que as bandas nacionais vêm fazendo?
Essa mesmice é imposta. As gravadoras seguem uma tendência de contratações e as rádios seguem uma tendência americanizada. Então você é pressionado a fazer esse tipo de bandas, mas isso não quer dizer que sejam ruins. As gravadoras contratam coisas parecidas, que estejam produzindo um mínimo lucro naquele momento. É o que está acontecendo com o emocore. Começou com o CPM 22, depois apareceu o Fresno, o NXZero, o Hateen… Por que tem todas essas bandas parecidas? É uma imposição da tendência do mercado. A molecada está consumindo isso? Então vamos contratar bandas assim. Mas acho que a música brasileira está ótima. Há cantores e cantoras de MPB sensacionais aparecendo. É um momento muito rico, faz uns 10 anos que não vejo tantas coisas boas aparecerem. Se falarmos só de música jovem, vai aparecer a mesmice do emocore. Mas abra um pouco o leque e você vai ver um monte de coisas boas, só que sem tanta atenção da mídia.

Duplas sertanejas e a banda Calypso estão entre os artistas mais populares do país, segundo uma pesquisa recente. Isso mostra que há espaço, também junto aos jovens, para outros tipos de música?
A música sertaneja poderia ter um pouco mais de espaço, sim. A gente deveria dar um pouco mais de atenção ao sertanejo mais moderno, como o country americano. Eu gostaria de fazer um sertanejo diferente do estilo Zezé di Camargo.

Se três moleques talentosos te procurassem para você produzir um disco de instrumental, você toparia ou falaria para eles desencanarem?
(Risos) Excelente pergunta. Acho que não falaria para mudar de idéia, mas iria alertá-los de que é um caminho duríssimo. Teria que ser sincero.

Aonde você espera chegar com esse disco do Hitchcock Trio?
Primeiro, espero que as pessoas gostem do CD, que foi bem feito, com carinho. E que entendam que o Rodrigo tem outras faces musicais.

Quais os próximos passos do trio?
Estamos ensaiando um show que será visual. A cada música, passarão num telão imagens do filme que está sendo homenageado.

Vocês já pensam num segundo CD sem ter o cinema como tema?
Ainda não pensei nisso, agora estou pensando bastante no show.

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